16
jun

Tchau!


Aí, moçada;

A brincadeira acabou! Já defini a porra da música. Eu simplesmente me fodi  bonito com essa história toda. Se meu tempo já estava uma merda, essa minha idéia doida terminou de me foder.

Como disse antes, num adendo que fiz ao texto original da promoção – que poucos leram, por sinal - adorei a participação de vocês. Mas, puta que pariu! Que trabalho fodido!

Definitivamente, bastavam umas duas tulipas a mais de brejas que eu terminaria essa música em paz e não ficaria tantas noites tentando adequar essa cacetada de sugestões à melodia que criei pra música.

Mas, mau humor à parte, teve um lado bastante divertido nessa história. Entre sugestões legais, outras estapafúrdias, outras simplesmente malucas e constrangedoras, passei bons e bêbados momentos tentando achar a solução dessa porra toda. Ri pra caralho algumas vezes e outras vezes só faltei chorar. Quase fumei o sofá.

Juro pra vocês: li TODAS as sugestões. TODAS! Fiquei encantado com o esforço de alguns mandando um montão de idéias, sugestões, rimas.

Foram váaaaarios posts carinhosos, divertidos, sinceros. Eu, que estou envolvido em tantos projetos, me vi doido tentando ser justo. Foi muito legal dividir o sentimento de vocês com os meus.

Acho que a música ficou ótima. De verdade mesmo, ela me lembra “MINHA ESTRELA” e “Ê, SAUDADE”. Duas músicas importantes pra cacete na nossa carreira.

Mudei um pouco a regra do jogo, tá? Como tinham tantas opções legais, resolvi utilizar duas propostas. E resolvi também que 20% era pouco. Escolhi duas alternativas. Cada uma delas ficará com 33%. Os autores receberão emails informativos sabendo que foram escolhidos. Farei isso em breve. Me dêem um pouco de tempo pra eu coçar o saco, ok?

Dava pra eu fazer uma porrada de música com as tantas idéias cuspidas aqui. Mas como não sou tubarão e só tenho uma pica, resolvo a história aqui mesmo.

Acho que, apesar do trabalhão que deu, repetirei isso todo ano. Serei mais justo com vocês e deixarei a parte da música que compuser aqui em forma de áudio, seja no youtube ou na merda que inventarem daqui pra lá.

Muito obrigado a todos que participaram. Alguns foram tão incisivos que eu cheguei a pensar em utilizar de alguma forma as frases que mandaram. Mas acho que minha escolha foi justa. Tentei ser imparcial e adorei assim ter sido.

Vou gravar a música dentro em breve. Mesmo que inicialmente em formato voz e violão. Só pra vocês saberem como a música ficou.

Aos que mandaram sugestões e não as viram escolhidas, meu sincero e muitíssimo obrigado. Acho que de alguma forma despertei em vocês tesão em fazer e criar alguma coisa. Garanto que muitos passaram mais tempo inventando idéias aqui do que assistindo programas idiotas.

A música é simples como tinha que ser, como eu queria que fosse.

Espero que vocês gostem da música. Eu adorei.

Obrigadíssimo a todos!

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Aos vencedores, um brinde! Vocês não só ganharão os direitos autorais da música. Vocês também deterão o direito de protegê-la, guardá-la e dizerem pra sempre “fui eu que fiz”. E sentirão na pele o mal que a pirataria faz aos compositores.

Quando mais da metade das pessoas que aqui escreveram e não obtiveram êxito, seja por qual motivo, simplesmente comprarem nossa música através de um CD pirata na sinaleira ou baixarem na internet nossa composição, vocês vão entender como somos impostores, escrotos e ridiculamente hipócritas quando deixamos de pagar os direitos devidos aos autores, músicos e intérpretes e contribuímos, com nossa ignorância e displicência,  para o fortalecimento do crime, da desmoralização e do desrespeito aos artistas que dizemos, filhos-da-putamente, que adoramos.

Sejam bem vindos, novos compositores, ao mundo de merda do qual agora vocês fazem parte!

Alegrem o mundo com a merda de sua música e não ganhe porra nenhuma com isso!

 Contribua com suas idéias, sensibilidade e tempo para o descaramento que é a política sacana de consumo de música da qual hoje fazemos parte.

Amém!

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A propósito… piratas

“Tchau, I Have To Go Now” custa R$ 3, 50 para ser baixada no celular como ring tones. Desses R$ 3,50, poucos centavos vão pro compositor ou artista que canta o caralho da música. 52.000 (cinqüenta e duas mil) pessoas pagaram R$ 3,50 pra ter “Tchau, I Have To Go Now” tocando no celular bonitinho que papai e mamãe deram de presente de natal. O CD, que custa em média apenas R$ 9,90 em qualquer loja de merda do shooping da esquina que você vai desfilar suas roupas de grife vendeu pouco mais de 20.000 (vinte mil) cópias. Um número que, caso vocês não saibam, é muuuuuito significativo nos dias de hoje.

Viva a putaria! Viva a safadeza!

Bem vindos ao show bussines, novos compositores de merda! Sejam bem vindos ao meu mundo! O mundo dos babacas escrotos que perdem noites tentando fazer algo legal pra ver gordinhas burras em carrinho do ano comprando CDs piratas e fazendo gestinhos ridículos de coraçãozinho na mão gritando “eu te amo” em shows que custam R$ 30,00 o ingresso. Mas que preferem pagar R$ 5,00 num CD pirata ou R$ 3,50 em quinze segundos de música no celular.

“Eu te amo” um caralho, seus picaretas caloteiros escrotos.

Quer reclamar da violência, né? Quer cobrar mais segurança, né? Quer dizer que o crime organizado é uma merda, né? Quer falar na faculdade que a falta de segurança te aflige, né?

Mas não perde uma porra de oportunidade pra comprar uma bolsinha Chanel falsa, um tênis de “tlinta leais” ou um cedêzinho pirata maneiro da sua banda preferida.

Criminosos, hipócritas.

 Crime. É o que comete quem compra Cd pirata.

 Bem vindos ao mundo dos compositores, parceiros!

Namastê  

postado por: manno


15
abr

Idéias Absurdas


Acordo no meio da noite. Procuro um Stilnox. Não acho. Merda.Vou pra cozinha. Abro a geladeira. Tangerina e pizza fria. Faço um café. Extra-forte. Acendo um cigarro. Luz do quarto acesa, a única acesa na casa. Ela provoca na sala uma penumbra rasa, tranqüila, fotografia em preto e branco de Arthur Tress. Silêncio. Silêncio. Sento no sofá e trago despretensiosamente um carltinho.  Penso nos shows da semana passada. Nos que estão por vir.  Surge uma frase na cabeça. Uma idéia de melodia. Pego o violão. Opa… isso aqui ficou bom. Corro pro quarto. Papel, caneta e gravador. Primeiros versos escritos. De uma tacada só. Junto com a melodia: “janelas se abrem, cachorros se espantam. Os telefones tocam, pessoas se levantam. Os carros correm avançando os sinais. As crianças dormem pro sossego dos seus pais”.

  A Idéia é falar do dia a dia comum. Das coisas comuns que acontecem à nossa volta. Enquanto vivemos nosso mundo particular e aprendemos a conviver com seja lá o que for. Continuo tentando. A segunda parte não ficou tão legal. Ignoro tudo, pego outro papel e recomeço a segunda estrofe. Pego o violão e canto. Opa. Gostei: “as ondas se quebram, os cabelos caem, os velhos esperam, as pessoas traem. Os gatos se lambem, aviões cruzam no céu. Enquanto as portas rangem, as abelhas fazem mel”. Humm. Gostei mesmo. Gostei bastante.

Um pop-rock interessante e com melodias grudentas começa a se formar. Refrão agora. Mil caminhos. Nesse universo misterioso de apenas sete notas se escondem infinitas possibilidades e avenidas a seguir. Quero falar que as coisas, que o tempo, que tudo vai passando e acontecendo o tempo todo. E a vida segue em frente. Keep walking. Pensa, Manno Góes. Hmmm. Largo o violão. Abro a geladeira. Uma garrafa de Tabali Shiraz me olha sorrindo pedindo: “devora-me”. Obedeço. Tomo a primeira taça. O vinho amadeirado e saboroso entra muitíssimo bem. Toco de novo a música até onde está pronta.

Então ele chegou: sem prevenir, sem pedir licença. Simplesmente adentrou meus pensamentos e se plantou ali, enraizando o que eu buscava sem me dar aviso algum: O refrão. Como eu queria. Grudento, sucinto, objetivo: “e assim os dias se vão e eu me acostumando a viver, simplesmente os dias se vão, e eu me acostumando a viver sem você”. Nossa! Certas composições surpreendem de imediato. A melodia, a métrica das palavras, os acordes, os detalhes do violão. Tá tudo ali, no lugar certinho. Bebo outra taça. Ligo o gravador, aperto o REC e toco a música inteira. Rebobino a fita. Ouço o que acabei de gravar. Sim, sim! Eu realmente gostei disso. Uau!

Quero outra parte. Começo assim: “as famílias crescem, mulheres engravidam, jovens adoecem, os ferros se oxidam, namoros começam e terminam em bancos de jardim, tudo que é pra sempre,  sempre um dia chega ao fim”. Refrão de novo: “e assim os dias se vão e eu me acostumando a viver, simplesmente os dias se vão, e eu me acostumando a viver sem você”.

Gravador. Papel. Caneta. Violão. Cigarro. Vinho. Meus instrumentos de trabalho. Gravo a música toda. Olho pro relógio. Quatro e quinze da manhã. Demorei meia hora pra compor essa canção que eu simplesmente adorei. Que seria mais uma de gaveta. Que ficaria guardada, bem guardada, junto com infinitas composições que surgem assim, do nada, do meio da madrugada. Mas que não cabem no trabalho do Jammil. Que ficariam esquecidas ali…

Ficariam, porque recebi um convite e topei. Em Junho estarei gravando meu primeiro CD solo. Em Los Angeles. Produzido por Torcuato Mariano. Um gênio da música brasileira. Argentino naturalizado brasileiro. Um Maradona com o swingue de Pelé. Nas guitarras gravarão comigo Torcuato , o Coelho, do Biquíni e o Yvess Passerelli, do Capital Inicial. No sax, George Israel, do Kid Abelha. Violão e baixo em algumas músicas, Rodrigo Santos, do Barão Vermelho. Na bateria, Vinnie Colaiuta. Um gênio da bateria mundial. Ele só gravou com Madonna, Sting, Elton Jhon, Paul McCartney, esses garotos novos que estão começando.   Nos teclados meu amigo Flávio Venturinni.

Frio na barriga. Um trabalho de doze canções minhas. Todas inéditas. Todas eu cantando. Todo dia dou uma olhada nas minhas anotações de gaveta. Ouço músicas que nem lembrava que existiam. E me delicio com o poder que as músicas têm de se manterem em forma quando são pouco ouvidas. Outras, nem tanto. Dificilmente gravarei estas um dia.

Dou o nome dessa música que acabo de fazer de “Os dias se vão”. Tomo outra taça. Acendo outro cigarro. Arrumo a papelada, o gravador e a caneta. Ponho tudo numa gaveta nova, mais organizada. As que vão entrar nesse CD. Logo abaixo desta fica a gaveta com as letras das músicas que estou fazendo pro Jammil. Mais doze inéditas. Pro DVD da Estrada Real. Pops também, mas com a cara do Jammil. Com muito axé e diversão. Pego uma folha dessa gaveta do Jammil. Uma música quase pronta. Incompleta ainda.

Me passa uma idéia absurda na cabeça. Gostei da idéia:

É o seguinte: Dou 20% da parceria da composição pra quem me mandar as duas frases que faltam na música.  Duas frases. Que eu poderia fazer agora. Mas gostei da idéia.

Segue a letra como está:

“Ei, moça bonita, a gente não se fala já faz um tempão

Como vai a vida, como vai o coração?

Você me conhece, sabe que minha história é essa confusão

Cada dia um porto, cada dia um avião

Mas sempre te levo comigo

Nos pensamentos mais bonitos

(agora é a parte de vocês)

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E a gente ri, e a gente chora

E a gente brinca de brigar

E bate a porta e vai embora

E sempre pede pra voltar”

 

E aí? Vão encarar? Quero lembrar que essa música provavelmente será gravada no DVD da Estrada Real. Além de um de vocês virarem parceiros meus ainda vão ganhar uma graninha bem legal de direitos autorais.

Seguindo aqui algumas regras:

1-      Só vale um compositor. Se vocês escreverem em parceria com alguém e o nome desse alguém também entrar na música, os 20% serão divididos entre vocês.

2-      Dependendo do que rolar, posso depois selecionar as que gostei mais e colocar no site pra votação.

3-      A edição da parte que vocês fizerem será editada na minha editora, a Malu Editora.

4-    SÓ VALERÃO AS LETRAS ENVIADAS AQUI NO BLOG. NÃO MANDEM POR EMAIL!!!!!

 

 

É isso aí. Tirem da cabeça e da gaveta algumas idéias e mandem brasa.

 

Vou aguardar respostas com bastante expectativa.

 

Mandem brasa, parceiros! Toda música é pra sempre.

 

Boa sorte!!!

 

Beijos

 

Namastê

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ATUALIZAÇÃO DA PROMOÇÃO - 21 de MAIO 2009

Depois da idéia absurda, estou tendo um trabalho absurdo para bater o martelo na música.

Muito obrigado mesmo a todos que estão participando. Apesar do trabalhão, está sendo divertidíssimo ver os esforços, a criatividade, o interesse de vocês.

Sei que desde o início fui meio injusto, oferecendo apenas o espaço da frase a ser encaixada na música, não lhes mostrando a melodia nem nenhuma forma de sintaxe pra que lhes ajudassem na hora de compor. Mas creio que por um lado foi bom, pois assim eu mesmo encontrei um desafio interessante que é tentar encaixar suas sugestões na melodia que pensei pra música.

Ainda não decidi qual será a frase escolhida, mas acreditem, estou me esforçando.

Curioso que eu sei que por ter sido um processo aberto, em que todos aqui acompanharam, leram as sugestões e criaram simpatia por uma ou outra frase, quando eu fizer minha escolha, certamente não vou agradar a todos. Pelo menos o autor da frase escolhida vai ficar feliz.  

Achei válida a iniciativa de algumas pessoas que não só escreveram a frase como também modificaram boa parte da letra. Algumas até criaram suas próprias melodias e inverteram o proceso, utilizando parte da letra que eu tinha escrito na música que eles tinham feito. Não foi bem o que eu pedi, mas vale o espírito empreendedor.

Uma composição pode ir pra milhões de caminhos. E cada caminho revela um lado novo, uma sensação nova pra quem a ouve.

Eu, antes de publicar o post e sugerir essa “promoção”,  já havia criado um caminho melódico pra música. Pelo menos pra parte que escrevi. E esse caminho melódico será seguido.  

Continuem mandando suas sugestões. Dia 17 de Junho eu publico o resultado.

Boa sorte e, mais uma vez, valeu demais a participação de vocês.

“Música é 10% inspiração e 90% transpiração”

 Ufa!!!

 

Namastê!!!!!!!

postado por: manno


27
mar

Paleolítico


Ahhhhhhhhhhh! Eu queria ter assistido o Radiohead no Rio de Janeiro! Não conhece o Radiohead? Você está ouvindo axé demais, garota.

Eu adoro axé.  Encontro milhões de coisas divertidas nesse universo competitivo e criativo da nossa fábrica de fazer alegria. Depois que Caras, Quem, Contigo e outros veículos de comunicação similares entraram pesado na orla da Barra durante o carnaval, com seus camarotes confortáveis, glamorosos e repletos de estrelas de segunda grandeza, o carnaval da Bahia ficou mais sensacional ainda. Adoro!

Me sinto muito mais inteligente quando acaba o carnaval. Afinal, fico sabendo qual foi a melhor e a pior roupa, o melhor e o mais desgrenhado cabelo, o melhor e o pior croquete de camarão. Fico sabendo também quem comeu quem e quem não comeu ninguém.

Sabe aquela história de antigamente, bem antigamente, do tempo das cavernas, quando a gente cantava coisas como “Jogou sua rede, ó, pescador”, e o Olodum, com suas cores lindas e batuque poderoso ganhava os destaques das ruas e rádios de Salvador? Esqueça.

Sabe aquele tempo, bem lá de antigamente, muito antigamente, quando tudo que a gente queria era botar o bloco na rua, gritar e botar pra ferver? Lembra de quando as músicas que competiam pra ganhar o carnaval causavam divisões de opiniões entre as pessoas pra decidir qual era a melhor e não a menos pior? Esqueça.

Lembra daqueles tempos em que a gente via os blocos lotados, com mamães sacodes agitados pra cima, numa confraria divertidíssima de excessos, porra-louquices e pipoqueiros curtindo do lado da corda dos blocos? Esqueça. “Mamãe sacode” hoje é coisa brega. Legal agora é ficar com aquele treco esquisito que parece um pinto gigante levantado durante o desfile. Que diabo é aquilo, hein? Umas bisnagas de plástico devidamente assinadas por algum  patrocinador. Um tal de “bate bate”. Eu, hein?

Sou do tempo em que axé se confundia com o cheiro de mijo das ruas durante o carnaval na Praça Castro Alves. Na pipoca do Cheiro, Interasa, Eva e Camaleão.  Em que os solos de Armandinho ecoavam no Jornal Nacional. Em que pseudo-celebridades não eram necessárias pra tornar a festa especial. Mas sou velho. Sou do tempo das cavernas.

O casamento camarote-barra trouxe pro nosso carnaval um destaque que não tínhamos tempos atrás. A mídia abriu os olhos pro nosso carnaval quando as mesmas celebridades que freqüentavam os camarotes dos desfiles de escola de samba no Rio passaram a vir pra Bahia, pros nossos camarotes repletos de birita, guloseimas e mulheres gostosas. Fortalecendo assim o circuito Barra-Ondina, que fez dos camarotes uma atração à parte. Enfraquecendo ano após ano o circuito tradicional, o do Campo Grande.

Por mais que se discutam formas de fortalecerem novamente o circuito do Campo Grande, pra mim, mesmo que se solucionem problemas de horários, segurança e estruturas, o circuito Osmar (como é chamado o circuito tradicional, o do Campo Grande) só volta a atrair de fato o público alvo quando a mídia se sentir atraída pra se fixar por lá também. Aquele camarote do Campo Grande, com as redes de TV e seus palanques com caixas de som é o único ponto realmente forte daquele circuito. Não pode, porra. Afinal, é lá que está a Praça Castro Alves, que é do povo, assim como o céu é do avião. Mas não é a indústria do carnaval somente que tem que resolver o problema do circuito tradicional. É o governo que tem que fazer sua parte também. Investir em um projeto de reurbanização da cidade velha. Atrair hotéis, restaurantes, cinemas praqueles lados de lá. Aí sim. Se isso acontecer e alguns camarotes importantes começarem a fazer parte do cenário do circuito do Campo Grande os artistas, e não só o público, redescobrirão o interesse por este circuito. Ia ser interessante se todos os blocos tivessem esse comportamento de alternar seus dias de desfile entre os circuitos. Adoraria sair com o Balada do Corredor da Vitória, pelo menos um dia, adentrando o camarote do Campo Grande ao som de Praieiro, passando pelos casarões antigos da Avenida Sete. Cruzando o relógio de São Pedro e me preparando pra descer a Praça Castro Alves, vendo a vista mais bonita de Salvador.

 Mas eu sou velho. Sou lá de antigamente. Do tempo das cavernas. Do tempo em que eu saia em bloco e sabia qual banda que tava tocando. Sou do tempo em que a gente beijava na boca um bocado também. Mas que sabia, pelo menos, fazer uma gentileza com a paquera do momento. Não era essa coisa de agarrar somente e contabilizar o número de bocas que chupou. A gente beijava, conversava um pouquinho, dava uns pegas atrás do carro de apoio, tomava uma cervejinha juntos, andava de mãos dadas no bloco, dançava agarrado. Essas coisas de velho. Sabia até o nome da pessoa que a gente tava beijando, olha só!

Sou do tempo em que era maneiro ver um bloco inteiro de mamãe sacode pra cima. E não esse pinto de elefante que arranjaram de pôr em seu lugar. Bate bate. Prfff. Parece coisa de punheteiro.

Não sabe o que é mamãe sacode? Tá ouvindo Radiohead demais, garota.

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Sinto falta das músicas de preto, de negão. Não do pagode, que está muitíssimo bem representado pelo Psirico, Fantasmão, PretuBom, Parangolé, Pagodart. Falo de músicas de axé, que se caracterizam pela influência do samba reggae original. Pagode é pagode, axé é axé. Caminham juntos de mãos dadas, mas são diferentes em elementos rítmicos.

Entendo que bandas como Jammil, Asa e Eva são importantes pro axé. Mas sei que não temos competência nem história de vida pra falar com originalidade de características próprias do universo negro da Bahia. Somos da safra axé-universitários, movimento criado por Durval lá pelos tempos das cavernas. Movimento que ele nem sabe que fundou. Tá bom. Que eu tenho a ousadia de dizer que foi ele quem criou.

Sinto falta do Olodum. Cadê o sucesso do Olodum neste carnaval? Quem viu o desfile do Ilê? Quero Margareth Menezes endeusada, reverenciada como o talento que é. Quero ver o Araketu brilhando no próximo carnaval. E quero ver Tatau com sua voz linda arrebentando também. Quero ver o Cortejo Afro no Jornal da Globo. Quero ver Bronw ter na Bahia o destaque que teve, lindo, no Rio de Janeiro. Quero ver novos Tonhos Matérias surgindo, com vozes roucas e poderosas de negão. Quero ver Denny da Timbalada sendo reconhecido como o grande talento desta nova safra de música axé. A influência negra na nossa música é fundamental pra que o carnaval continue atraindo os brancos, negros, pardos e amarelos que compram abadás, passagens aéreas, churrasquinho de gato e CD pirata na sinaleira da esquina. Esse carnaval de hoje tá muito branquelo.

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Sou do time do bloco de corda. Do time de artistas que atrái turistas pra Bahia com toda a estrutura mercadológica que envolve nosso trabalho. Mas o carnaval não pode depender somente dos blocos de corda e dos artistas que aparecem na mídia. O que tornou forte nosso carnaval foi a nossa música. E um conjunto de ações que envolve parceria com empresários de outros estados, inteligência empresarial e competência administrativa,  somado a um bom trabalho de mídia e divulgação. Mas nada disso adianta se pararmos de dar espaço pra voz da rua, do povão. Que, em se tratando de Bahia, é representada por mais de 70% de negros. Cheios de criatividade, talento e idéias na cabeça.

Mas sou do tempo das cavernas. De antigamente. Do tempo em que o carnaval era  simplesmente celebração. E não celebridades.

Namastê

“E a galera ta delicia
Curtindo na moral
Funk, curte samba
Vai o carnaval
Hei! Você que está parado aí
Jogue a mão pra cima
Sai do chão
Sacode aíE é mamãe sacode
Mamãe sacode
Mamãe sacode
Mamãe sacode “
 

 

 

 

Pagodart (Mamãe Sacode)

postado por: manno