01
dez

O outro filho do Brasil


Aprendi a conjugar o verbo caetanear desde que aprendi a roçar a minha língua com a de Luís de Camões. Desde que me senti a filha da Chiquita Bacana, não entrando em cana porque sou família demais.

Aprendi a conjugar o verbo caetanear desde que descobri que tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem, pois a Bahia tem um jeito.

Aprendi a conjugar o verbo caetanear desde que aprendi que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu. Desde que percebi que meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer. Que o amor é um bálsamo benigno, meu signo, meu guru.

Aprendi a conjugar o verbo caetanear muito antes de admirar Alexandre, o grande, que nasceu no mês de leão, sua mãe uma bacante, e o rei, seu pai, um conquistador tão valente que o príncipe adolescente pensou que já nada restaria pra, se ele chegasse a rei, conquistar por si só.

Aprendi a conjugar o verbo caetanear desde que o sol nas bancas de revistas me encheu de alegria e preguiça, andando sem lenço e sem documento, nada nos bolsos ou nas mãos. Desde que senti que o ciúme e sua flecha preta me acertariam no meio exato da minha garganta.

Aprendi a conjugar o verbo caetanear desde que aprendi que tudo é divino e maravilhoso, mas ATENÇÃO, é preciso estar atento e forte.

Aprendi a conjugar o verbo caetanear desde que descobri que é proibido proibir.

“Vocês não estão entendendo nada. Nada!”

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“Lula, o filho do Brasil”

O filme mais nojento que já vi depois de “A Mosca”

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“MELHOR QUE ISSO SÓ O SILÊNCIO. E MELHOR DO QUE O SILÊNCIO SÓ O JOÃO”

postado por: manno


10
nov

Desagradável


Durante o delicioso programa Bem Amigos, do qual participamos nesta segunda-feira na Sportv, houve uma calorosa discussão, justíssima, a respeito daquele lance absurdo do juiz Simon, que anulou erroneamente o gol do Obina, e da reação cabeça-quente do presidente do Palmeiras , Belluzzo, ao erro descabido do árbitro.

Uma observação interessante foi feita pelo Arnaldo César Coelho. Ele disse que o Simon está “inseguro, entrando em campo para apitar o jogo com medo de desagradar as pessoas”.

Independente do erro de Simon e das declarações do Belluzzo, esta frase do Arnaldo serve pra todos nós, em todos os momentos de nossas vidas.

Quando tomamos decisões com medo do julgamento dos outros, com medo de desagradar, sempre corremos o risco de sermos infiéis aos nossos princípios. Ninguém agrada a todos. Esta afirmação está presente no nosso dia a dia, a toda hora.

O que percebo naqueles que temem o ato de desagradar alguém é justamente o mesmo que o Arnaldo percebeu no Simon: insegurança.

Medo de desagradar é pior que o artifício dos bajuladores, que fazem de tudo para agradar.

A qualquer hora, em qualquer lugar, poderemos desagradar alguém. Mas quando iniciamos um ato já com o medo disto acontecer, enfraquecemos nossas idéias, nosso conteúdo e a legitimidade do que pensamos realmente.

Entrar na cama com medo de desagradar a parceira é estopim para uma bela broxada, caros amigos.

A nossa compreensão dos mecanismos que regem as mínimas regras de civilidade nos impede de sairmos por aí cuspindo nossas verdades absolutas, doa a quem doer.  Por isso guardamos algumas opiniões pra gente e utilizamos da cordialidade e paciência em alguns momentos. Não ser uma pessoa desagradável é bem diferente de viver por aí flutuando, com ares e frases de pessoas perfeitinhas, que fazem de tudo pra serem consideradas gentis, agradáveis, mágicas e boazinhas o tempo todo. Uma chatice. Coisa de gente muitíssimo desagradável e fútil. São aqueles que vivem com a síndrome do querer ser amado o tempo todo.

Nós erramos quando não defendemos nossas convicções. Mesmo quando estas convicções não são necessariamente as mais corretas ou formosas.

 Cabe ao bom senso o nosso esforço pra sermos “gente”, humanos, passíveis de erros e tolices.  Devemos sustentar o que consideramos correto, lícito, justo, em harmonia com nossas percepções.

O medo de desagradar é insegurança dos covardes.

Se o Simon agiu de acordo com a convicção dele no momento do lance do gol do Palmeiras, marcando erradamente a falta do Obina, mas achando que estava correto em seu julgamento naquele instante, paciência. Mostra incompetência e descuido. Mas defendeu seu ponto de vista. Agora, depois que ele viu o lance na televisão – e ele viu sim – não se pronunciar a respeito, não é só insegurança. É covardia.

Um bom juiz deve, primeiro, ser honesto; segundo, possuir dose razoável de habilidade; terceiro, ter coragem; quarto, ser um cavalheiro e, finalmente, se tiver algum conhecimento da lei, isto será um bom auxílio” – Bernard Botein, juiz da Suprema Corte americana em 1957

“Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros. Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros”- Clarice Lispector

postado por: manno


05
nov

Menas laranja


Então tá.

Vamos começar este post assim:

Começando logo com a frase “começar com ESTE post”, porque se começasse com “começar com ESSE post”, já começaria errado, haja vista que o “ESTE” nos aproxima mais do sujeito da frase do que o “ESSE”. E antes que confundam o que escrevi e comecem a escrever “comecem” com cê cedilha, quero logo começar dizendo que “comecem” não se escreve com cê cedilha, apesar de que todo começo tem seu fenecer. E fenecer é com cê, não com cê cedilha, como é assim que tem que ser, desde o começo.

 Comecei logo chato. Chatão. Muito chato. Bem chato. Logo quando comecei. Mas sem cê cedilha. Nem disfarces (que também se escreve sem cê cedilha).

Pra lembrar como chatas eram nossas aulas deliciosas de português. Que culpa tem (reforma ortográfica atuando e excluindo o bonitinho chapéu do vovô circunflexo do “têm”) nossas professoras de terem tentado nos ensinar a forma correta de utilizarmos essa nossa língua linda, falida e fadada a extinção? “Que culpa tem de terem” é massa, ótimo e correto, apesar de feio. Parece um gerente do HSBC que conheço. Massa, ótimo e correto. Mas feio que dói.

 Assim como o tupi-guarani, o Jê, o Aruak, o Karib, a língua portuguesa está morrendo. Sobrevive aos trancos, barrancos e arranhões rascunhados dos poucos seguidores da vasta oferta disponível do nosso velho, difícil e arcaico português correto. Que não nos serve pra nada. Não garante emprego em lugar nenhum no mundo que não seja no Brasil – desnecessário no currículo inclusive pra ser presidente – ou em países fodidos da África ou  pra ser dentista em Portugal.

A língua se transforma, como guelras que viram pulmões.

É assim, assim foi e assim será.

Neste momento ufanista em que vivemos, de glórias olímpicas e ocorrências de hidrocarbonetos nas sequências pré-salinas e pós-salinas nas nossas terras, deveríamos antecipar o fim inevitável da nossa língua moribunda que roça sensual com a língua de Luís de Camões e declarar, desde já, urgentemente, o uso liberto do brasilês.

Não à língua portuguesa já!

A reforma ortográfica foi muito acanhada. Vamos falar, escrever, utilizar, twitar, blogar com o nosso bom e honesto brasilês! Mais jovem, vigoroso, sucinto e adequado ao nosso povo sem livros, legendas ou estruturas educacionais.

Vamos inaugurar urgentemente a inédita, atrasada, a “já veio tarde” língua brasileira, ora pois! Quem precisa neste mundo globalizado saber português?

A coisa mais ridícula que ouvi nestes últimos vinte anos foi que a música baiana iria um dia ganhar o mundo. Lamento desapontar vocês, profetas da língua, fãs do Jammil e dos ritmos baianos.  A música baiana, assim como a carioca, a paulista, a mineira, a paraense ou a gaúcha NUNCA vai ganhar o mundo.

Estrangeiros nos ouvem falando como a gente ouve chinês ou japonês. Legendas em português são hieróglifos pra europeus e pro resto do mundo.   Brasileiros sem inglês trabalham como empregados em outros países, porque os patrões, estes sim, espertos, sabem todos falar, no mínimo inglês.

A gente somos curíntians, sumpaulo, parmeras, framengo, fruminense, atrético ou Baêa, minha pôrra, entre outros, craro. Nós andemos de moto e derrubemos os retrovisô sem dó. A gente somos Brasil baronil. Quem lá quer saber o que quer dizer baronil? A gente somos é nóis e fudeu. A baía de Guanabara parece mesmo uma boca banguela no Rio ou nos Bororós. Somos cults, cut cuts e exóticos. O charme de sempre nos brazilian days.   

Vamos adotar de vez nosso brasilês. O brasilês dos jovens que twitam. O brasilês do verbo twitar. O brasilês das menas laranja e menas plurais.

O brasilês que falemos e que corrobora com a falência do hábito de ler e escrever coisas mais interessantes que blogs de banda.

Sem concordâncias, sem regras, sem literatura.

Sem Machados de Assis, Jorges Amados, Euclides da Cunha, Castros Alves, Caetanos, Chicos, Fernandos Sabinos ou Éricos Veríssimos.

O brasilês de Paulo Coelho representando o país ao lado de Lula gritando ‘”Urra” por nosso sucesso olímpico inédito. Aquele “Urra” estrondoso, mágico, estonteante, que cambaleia crianças e muda toda a estrutura política e econômica do nosso país medalha de ouro no quesito justiça, distribuição de renda e comprometimento ético.

 “Castro Alves foi quem mesmo? Aquele francês que inventou o avião?” perguntou-me séria e honestamente a ascensorista do prédio comercial localizado em plena praça Castro Alves nesta segunda-feira quente de verão. “Urra!”.

Viva o brasilês! Minha pátria é minha língua. Deixemos os portugais morrerem à míngua. A mangueira fala!

Adoro os sotaques, os erros de português, a exclusão dos esses, das vírgulas , dos pontos finais. Acho bárbaro os vcs encurtando os vocês, os pqs encurtando os porques, os bjs encurtando os beijos, os MSNs e orkuts aproximando-nos a todos!.

Um país deste tamanho fala de norte a sul uma só língua. Viva aos jesuítas! Esse tal de Marquês de Pombal era um chato estraga prazeres.

Falo baianês. E oxente, uai, adoro também o mineirês. O carioquês também. O gauchês, tchê, nem te conto. E o paulistês cheio de porrrrrtas e torrrtas.

Adoro o tí tí tí charmoso pernambucano. O floripanês gostoso, quase um gozo.

O maranhanês perfeito, apesar dos livros chatos de Sarney que eu nem li mas que acho chatos só por terem sidos escritos por ele. Você leu algum daqueles duzentos mil exemplares que foram vendidos? Conhece alguém que leu? Sabe de alguém que conheça “O Outro Lado da História”?

Viva nossa língua brasileira! Que é tudo de bom. É fácil. É viva. É nossa.

É tudo, “menas” língua portuguesa, bichinho.

É nóis!

Urra!

Brasil, sil, sil sil, sil… (sem Z, please)

postado por: manno