nov
1986
Voltando pra casa, no aeroporto de Congonhas, São Paulo, deparo-me na estante da livraria com a edição número 2 da Rolling Stone brasileira. Na capa, os olhos azuis de um Iggy Pop sarado me convidam, ou melhor, me obrigam a comprá-la.
Além da matéria feita com o líder sessentão dos The Stooges num show em Buenos Aires, a revista traz matérias incríveis sobre Tom Zé, sobre a Cientologia – aquela religião maluca daquele maluco do Tom Cruise - sobre os erros e acertos de Gil no ministério da cultura, uma sobre Stacy Fergunson, aquela loira gostosa do Black Eyed Peas, entre outras coisas bacanas mais. Dentre elas, uma que me chamou a atenção e me tocou de um modo especial: sobre o ano de 1986, o ano de ouro do rock brasileiro. Ano em que eu despertei pra música de maneira singular, influenciado pelos discos de Djavan, Caetano e Chico Buarque de meu pai, os do Pink Floyd, Supertramp, The Cure e Dire Straits do meu irmão e os dos Titãs, Paralamas e Plebe Rude da minha “tchurma” precoce dos Maristas. Foram discos como “Selvagem?” dos Paralamas, “Dois”, da Legião, “Capital Inicial”, do Capital, “Vivendo e Não Aprendendo”, do Ira!, “O Concreto Já Rachou”, do Plebe Rude e “Longe Demais das Capitais”, do Engenheiros do Hawaii que me fizeram querer aprender a tocar violão. Creio que muito da sonoridade honestamente pop que nós, do Jammil incorporamos à nossa estética “axé” vem da forma voraz com que ouvia esses Lps, assim como Beto e Tuca também o fizeram.
Gosto de música cantada em português. Por isso, talvez, sempre cultivei de maneira mais afetuosa as bandas brasileiras que as importadas. E dia desses participamos de um festival em Sauípe, na Bahia, o Sauípe Fest, no qual tocamos no mesmo dia em que o Capital. É sempre bom dividir o palco com bandas que participaram efetivamente da nossa formação musical. Tocar com bandas como Paralamas, Titãs, Biquíni e Capital nos remete ao tempo das garagens, dos recreios da escola, dos primeiros beijos, paixões e excessos. Escrevo ouvindo “Índios”, do Legião, que, soube agora, através da matéria da revista, foi a última letra a ser escrita e gravada pela banda no álbum “Dois”. Disco co-produzido por Carlos Savalla, curiosamente, o produtor do nosso primeiro CD, o “Tanta Coisa Mudou”, de 1997. Muitos dos nossos fãs atuais nem haviam nascido em 86. Não tiveram a oportunidade de cantar no chuveiro “Tempo Perdido” ou “Música Urbana” aos berros. Mas há tempo pra tudo.
Ainda hoje os álbuns clássicos dessas bandas são muito bem vendidos. Vale a pena comprá-los e conhecer o filé mignon do BRock. Parte que foi pedra fundamental pra minha formação musical e de muitos que hoje sobem em um trio e se orgulham de terem visto, vivido e ouvido uma geração completamente especial e única na história da música brasileira.
Que a força esteja com vocês!
Ass: Manno Góes
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