28
fev

Leontopithecus rosalia


O carnaval de 2008 será incrível!

Porque o de 2007 já foi.

Passou.

Foi ótimo, maravilhoso, perfeito. Blá, blá, blá, blá, blá.

Quem não sabe disso?

Então, pra quem pedia e esperava que eu falasse aqui no Blog sobre o carnaval de 2007, desculpe. Minha cabeça já está no de 2008…

A não ser que seja pra eu dar uma sacaneadazinha… Falar, tipo assim, dos amigos doidões que pagaram mico…

Porque carnaval sem mico é igual a Jardim Zoológico sem leão velhaco bocejando dentes podres ou sem macaco escroto pegando no bingolim: Não tem a menor graça!

Carnaval tem que ter mico. Pra gente rir e tirar xaveco depois das asneiras dos amigos bebuns.

Teve um amigo meu que resolveu mijar logo no muro de um posto da polícia na Barra. Um policial viu o infeliz no ato e gritou, com toda a simpatia ensinada nas academias militares: “Ô, palhaço! Que merda é essa que você pensa que está fazendo aí, hein, estrupício?”. Ele, coitado, prontamente respondeu na maior inocência e cara de pau do mundo, com seu sotaque absurdamente paulistano: “não é merda não, seu guarda. É só xixi, ô, mêu”. Hahahahahaha!!! Tadinho. Passou a segunda-feira gorda de carnaval inteirinha com balde d’água, sabão e escovão na mão lavando módulo policial.

Outro amigo viu de dentro de um bloco nana-bacana o caseiro magrelo e banguelo de sua fazenda se apertando todo na pipoca, tomando tapa de tudo que era lado e perguntou, só de sacanagem: “E aí, fulaninho? Tá se divertindo aí, hein, sacaninha? Tá saindo em que bloco?”. O caseiro, sem perder a esportiva nem desrespeitar o patrão respondeu na lata, pulando ao som do trio do Chicletão: “Tá massa, Dotô! Saí em dois “broco” já: No NU OUTRO e no INTER”. Meu amigo, surpreso, arregalando os olhos, comentou, cheio de simpatia: “Sério? Que beleza, véio”. O caseiro finalmente mandou, cheio da manguaça: “É, seu pôrra… NU OUTRO lado da corda e no INTERvalo de um broco pro outro”. E tome-lhe tapa e cotovelada no caseiro magrelo e banguela que ria pra se acabar com sua garrafinha de capêta na mão…

Um outro, queridíssimo, um doce de gente, veio passar seu primeiro carnaval na Bahia com a esposa. Direto do interior de Minas, uai. Resolveu sair quinta em um bloco, sexta em outro, sábado em outro, domingo em outro e por aí vai… Cada dia um abadá diferente. O ruim era que as cores do abadá do sábado coincidiam com as cores do abadá da segunda em outro bloco, o da terça era igual ao da sexta, uma confusão só… E eu ainda avisei: “rapaz… deixa de maluquice…”. Mas nada! Ele queria porque queria curtir um pouquinho de cada banda, de cada bloco, de cada segundo, de cada percurso. Havia comprado um dia de Asa, um de Chiclete, um de Ivete, um de Babado, um de Jammil e um de Timbalada. Misturou o Reino da Folia com a Central do Carnaval e se jogou na bagaceira. Resultado: Na quinta foi pro Cocobambu com o abadá que era pra sair no Balada no Domingo. O segurança do Coco parou o casal e disse: “vocês têm que sair do bloco, senhor. Estão sem o abadá correto”. Ele, mineirinho, jeitosinho, dengosinho, disse: “Saio não, moço. Que trem de sair é esse aí? Saio nem que a vaca tussa, sô.” O segurança rebateu: “Sai sim, senhor. Infelizmente vocês vão ter que sair.” Muita cachaça na cabeça e “Quebraê” fazendo todo mundo se acabar no bloco, o mineirinho perdeu as estribeiras e mandou o segurança pastar. Pois bem. Ele não só foi retirado do bloco, como seus abadás foram rasgados e o casal se viu, em plena quinta-feira, primeiro dia de carnaval, sem poder sair mais nem na quinta com o Asa, nem no Balada no Domingo, com o Jammil, pois seus abadás acabavam de ser destroçados. “Tem nada não, amor”, disse o mineirinho à esposa. No dia seguinte, na sexta, novo vexame: Crentes que iriam sair com o Babado Novo no Eu Vou, lá estavam os dois incautos com os abadás do Coruja no bloco errado, quando um segurança parrudo três-por-quatro-criado-com-mingau-de-tapioca ordenou: “Vocês vão ter que sair do bloco”. Novo perrengue, discussão e abadás lascados. Pra piorar a situação, ao sair do Eu Vou sem ter mais os abadás da segunda, o casal teve que passar pelo beco da Caixa Econômica na Barra, tradicional e divertidíssimo ponto gay do carnaval da Bahia. Uma gorda baranga e suada viu o casal passando, puxou a esposa do mineirinho pelo braço, a chamou de gostosa e tascou-lhe um chupão daqueles em que a língua consegue virar serpente, invadindo uma boca que não deveria invadir. Ela – a esposa – reagiu prontamente. Com nojo e raiva deu um tapão sem dó na cara da gorda. Esta, por sua vez, olhou pra cara de espanto do meu amigo mineirinho que só sabia dizer “calma, gente, calma, gente, calma, sô”, e rumou-lhe um direto de direito no rosto que arrancou-lhe dois dentes e o arremessou ao chão. A turma do “deixa disso” apartou a briga e o conduziu a um posto médico, onde ele foi prontamente atendido. No dia seguinte ele me ligou: “Pôrra, Manno. O carnaval da Bahia é uma merda. Não consegui sair em bloco nenhum, perdi meu dinheiro, dois dentes e ainda apanhei de mulher”. Eu não consegui abafar o riso e ainda mandei: “Pára com isso, né? A mulher nem era tão mulher assim , pôrra…” Ele me mandou ir à merda e desligou o telefone na minha cara. Espero que faça as pazes comigo depois de ler este texto…

E por falar em posto médico, essa eu tenho que contar citando o nome do personagem envolvido na história: Coelho, guitarrista do Biquíni Cavadão. Que não é só um excelente compositor, guitarrista e melhor amigo: É um dos seres humanos mais incríveis, inteligentes, educados e divertidos que eu conheço. Na segunda-feira de carnaval ele havia dado uma canja sensacional com a gente ao lado de George Israel, do Kid Abelha, no Balada. Na terça, sem ter que dar canja nem nada, ele resolveu virar folião. Tomou de tudo um pouco e fez tudo que tinha direito. Quando o bloco acabou, entrou comigo na Topic que nos levaria até nosso camarote, a Casa Dos Praieiros, pra que terminássemos nosso carnaval lá. Eis o ocorrido: Perto da Casa Dos Praieiros a Topic pára. Nosso segurança, galã e cavalheiro, o querido “Babe”, abre a porta e diz: “Chegamos”. Coelho pula apressadíssimo do carro, guitarra pendurada nas costas, e caminha direto em direção a um posto médico que ficava bem ao lado do nosso camarote. Ele entra no posto com a maior cara de doido e encara imediatamente uma enfermeira novinha , perguntando pra ela: “Aonde é que eu pego uma birita, cara?” A enfermeira reage, espantada: “Como assim, senhor?” Ele repete impacientemente: “Aonde é que eu pego uma birita, cara?”. A enfermeira responde, educadamente: “aqui nós não temos birita, senhor”. Ele olha pra dentro do posto médico e vê um bocado de gente deitada e gemendo em macas. Eu, que havia corrido atrás dele juntamente com Cris Ribeiro e Gaby, preocupadíssimos, cheguei justamente neste instante e perguntei: “Qual foi, Coêio? Tudo bem, cara?”. Ele respondeu, na lata: “Tudo bem nada, Manno Góixxx. Esse seu camarote tá o maior caidaço, cara. Uma merda. Não tem birita, cara. O abadá da recepcionista é horrível, cara. Parece uma médica, cara. Tá uma merda isso aqui, cara. Só tem gente fodida dormindo aqui, pôrra. Aê, Manno Góixxxxxxxs.Vamos cair fora daqui, cara. Aê. Vamo pro Fat Boy Slim, cara”. hahahahahahahahahahahha

Isso é o carnaval da Bahia…

E perguntaram pra uns amigos do Coelho quando estes voltaram pro Rio:

- E aí, moçada… O pessoal gostou do carnaval da Bahia?

Um deles respondeu, doidaço:

- Gostou nada, cara! O pessoal ADORARAM!!!

Outro ouviu a resposta e reagiu prontamente:

- Que pôrra de adoraram, cara! Tá maluco, é? O pessoal AMARAM!!!!!!!!!!!

Hahahahahahahahahahaha

Que vocês tenham amado o carnaval de 2007! Porque eu já estou adorando o de 2008….

E assim vivemos felizes para sempre…

Manno Góes

postado por: manno


02
fev

Ah! Que bom você chegou…


O carnaval está chegando. E com ele os turistas, apressadíssimos pra beijar na boca e pular ao som do trio. E pra quem vem de avião e, ao desembarcar, dá de cara com o túnel de bambu do nosso aeroporto sabe bem como Salvador tem um que de não sei quê que deixa a alma tonta. “A Bahia tem um jeito…”
Acho oportuno republicar aqui um texto meu que saiu no verão do ano passado numa revista local. Era pra falar sobre Salvador e dar dicas de alguns restaurantes legais.

Segue o texto:

Eu amo Salvador. Minha cidade. Minha e de Caymmi, Caetano, Gil, Bethânia, Bell, Gal, Durval, Tuca, Tatau, Dinha, Dadá, Brown, Duda Mendonça, Nizan Guanaes, Daniela, Ivete, Margareth. De Lícia Fabo, Pedrinho da Rocha, Tati Moreno, Ivan Huol, Seu Bôa, Mário, Toinho, João e José. De Jorge, de Ubaldo e de Castro. E de tantos outros baianos que trazem estampada, na testa e no olhar, uma das frases mais simpáticas que existe: “Sorria! Você está na Bahia”. Simpatia. Taí um sinônimo pra Salvador. Salvador tem uma espécie de boêmia romântica, um ar de poesia, de livretos vendidos em mesas de bar. Eu amo minha cidade. O cheiro de mijo nas ruas no carnaval. O cheiro de mar nos bares do Rio Vermelho. Só em Salvador se come dobradinha ou feijoada, quem sabe uma moqueca de arraia, às quatro e meia da manhã em um lugar chamado mercadinho do peixe. Os carros estacionados vão tocar, volume ao máximo, de tudo. Pagode, arrocha, reggae, rock´n roll, axé, forró. Jazz, não. É pedir demais ouvir jazz no mercadinho do peixe. Mas vai lá no French Quartier, um restaurante-bar na orla da Boca do Rio que você vai ouvir um jazz de primeiríssima qualidade, tocado por músicos maravilhosos. Minha cidade não respira música. Exala. Transpira. Como bem disse Nizan, “baiano não nasce, estréia”. Por falar em estréia, Paulinho Moska, ex-Inimigos do Rei (lembram da Cucaracha?), quando veio tocar pela primeira vez em Salvador sentiu-se mal. Adoentado, foi a uma farmácia comprar um remédio. Lá chegando, atendente sentado, ele pergunta se tem o remédio tal. O cara diz que tem, mas pergunta se ele não quer outro que era a mesma coisa. Moska diz que tudo bem, mas pergunta: “Por quê? É mais barato?” O cara diz que não, mas é que o que ele pediu estava “lá em cima e ele tava com uma preguiça…” Eu amo minha cidade. Amo ouvir o garçom perguntar “quer guaraná?” e você responder que sim e ele mandar “qual? Antarctica , Fanta ou Coca?”. Amo minha cidade. Amo ir pra restaurante japonês em Salvador e ver sushiman negão, com fita na cabeça e quimono. E temos ótimos restaurantes japoneses aqui. O Shiro, lá na Graça, O Jóia, na Pituba, O Aice Sushi, também na Pituba, o Soho, lá no Bahia Marina. Todos com serviço de manobrista. Por falar em manobrista, eu amo os flanelinhas de minha cidade. Só aqui eles abrem o maior sorrisão quando você lhes dá apenas um real e ainda dizem, felizes da vida, “Deus lhe abençoe, véio”, ou “valeu, meu rei”. Só quem estaciona em São Paulo ou Rio sabe do que eu estou falando. Salvador é assim. Cada esquina uma comédia. Um reggae-man doidão vendendo marica de cerâmica. Um petista doente que agora odeia Lula. Reunião de partido político em mesa de bar no Beco do França, no Rio Vermelho. Batizado de cachorro. Cd pirata com capa onde se lê “pirataria é crime”. Essa vem de Arnaldo Antunes: Um dia em Salvador ele foi à praia do Sesc, lá onde tem a barraca de Jajá. Onde Durval cantou, na música “Na Bahia-iá que comeu “um polvo sipoeiro na barraca de Jajá”. Pois bem. Arnaldo estava numa mesa com alguns amigos quando lá pelas tantas chega um vendedor de CD pirata e diz, na maior tranqüilidade: “cara, sou seu fã. Você me dá um autógrafo?” e estende pra ele, na maior cara de pau, um piratão do seu recém-lançado CD solo. Eu amo minha cidade. Seu povo hospitaleiro, festeiro, criativo. Amo a comida da minha cidade. Moqueca, ensopado, maniçoba, caruru, abará, acarajé. Tudo bem light. Acompanhado de alguma roska: Morangoroska, kiwiroska, umburoska, sirigueloska. Por falar em roska, tem um restaurante aqui na minha cidade chamado Paraíso Tropical. Lá se faz a melhor roska do mundo. A comida de lá mistura receitas baianas com culinária internacional. Sem falar das invencionices de Beto, não o Espínola, outro, o proprietário, fã de frutas exóticas e de rinha de galo. Duda Mendonça ia muito lá. Não sei se agora tem ido mais não. Mas pra comer uma boa, uma ótima comida baiana, você não precisa se preocupar nem procurar muito. O cardápio de opções é vasto: Yemanjá, Agdá, Bargaço, Cantinho do Mar, Tempero da Dadá, Mistura Fina, Solar do Unhão. Camarão, polvo, lambreta, caranguejo, siri, ostra. Nada como ver o pôr do sol no bar da Ponta, do lado do maravilhoso Trapiche Adelaide, ou no restaurante do Yate Clube, comendo ostra e bebendo Proseco. Diz um amigo meu que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo em Salvador. E por falar em Deus, que fantástico que é o nosso sincretismo religioso. Nossas igrejas. Nossos terreiros. Não conheço lugar nenhum no mundo onde a igreja católica tenha feito tanta vista grossa à outra crendice e se adaptado tanto quanto aqui. Tentando não perder suas raízes religiosas, os negros escravos daqui criaram o sincretismo religioso. Nem é preciso ser do candomblé pra se vestir de branco sexta-feira. Santo Antonio é Ogum. São Lázaro é Omulu e por aí vai. E só quem já tocou em trio elétrico sabe o quanto isso foi rico pra nossa música. Nossos ritmos. Todo mundo canta “Danda Lunda”, “Emú Gegé”, “Maimbê”, “Toté de Mayanga”. Pode ser que ninguém saiba o que está cantando, mas fecha os olhos, vira a cerveja, berra o mais alto que pode e sai correndo atrás do trio, pulando feito pipoca, repetindo essas palavras com alegria e vibração. Salvador é uma festa! E quantas festas têm em Salvador.
Aos que chegam, quando olharem da janela do avião a Baía de Todos os Santos e avistarem o Farol da Barra, o Forte São Marcelo, e ali, na Avenida Paralela, o único Wet´n Wild falido do mundo, sorriam. Vocês estão na Bahia! Venham de alma aberta e o coração cantando! Porque quando vocês forem embora, vocês vão sentir saudade. Tomé de Souza disse, há muito tempo atrás, ao partir de Salvador para Portugal: “Verdade é que eu o desejava muito, e me crescia a água na boca quando cuidava em ir para Portugal, mas não sei o que é, que agora me seca a boca de tal modo que quero cuspir e não posso”.

Eu amo minha cidade. Minha e de Dodô, de Osmar, de Xandy, de Carla, de Tati Moreno, de Jorge Portugal, de Wally Salomão, de mãe Menininha, de Irmã Dulce, de Medrado, de Dvaldo Franco, de Glauber Rocha, de Béu Machado, de Bobô, de Edílson, de Carybé, de Pitty, de Antônio, José, Maria, João…

Eu amo Salvador! Vocês vão amá-la também!

Manno Góes

postado por: manno