11
jul

Sobre cigarros e avós…


A felicidade é pedra preciosa. Não há ouro ou tesouro sem escavação, mercúrio ou dinamites. Quem nunca sofreu por amor imagina o que é, mas não sabe o que é amar de verdade. Quem nunca tropeçou não sabe o que é se levantar com vergonha, mas com um bocado de estilo e dignidade. Dando um foda-se com o rosto vermelho e com a bunda idem. Mas com a certeza de que da próxima vez, cair será acaso, nunca mais desastre. E quem não sabe o que é saudade, não sabe o que é ser família e ser grato a ela.
Álcool, rock’n roll e axé music. Tuca, Manno e Beto. Somos nós, presente!

 Queriam nos contratar pra uma campanha contra o fumo. Eu fui o primeiro a gritar: “Nem a pau”!!! Fuma quem quer, pula de pára quedas quem quer, dá a bunda quem quer. Aí me disseram: “Manno, esse blog é lido por adolescentes… maneira o palavreado”.  Então coloquem uma tarja: “blog proibido para adolescentes que não sabem o que é dar a bunda ou o direito de cada um fazer ou escrever o que quiser”. Disciplina, pra mim, é liberdade. Pra Renato Russo também. E foi isso que aprendi e aprendo com meus pais e avós.
Tuca odeia cigarro. Beto idem. Eu adoro. Não queria que esta merda fizesse mal. Mas faz. E fez pra Dona Rosires, minha vó. Que morreu com 85 anos, semana passada, com o rosto sereno e o pulmão cheinho de nicotina. Mas que me encantava ao tocar piano com suas mãos brancas e rápidas. Aos oito anos, idade que hoje tem a minha filha, eu me sentava ao seu lado e a ouvia tocando. Lembro-me dela dizendo: “Chico Buarque é poeta. Tom Jobim e Caetano também. Mas Vinícius, Maninho… Vinícius é tudo”. E meus pais e meus tios se abraçavam e cantavam, ao som do piano de minha vó, até que os vizinhos reclamassem das vozes altas provocadas pelas talagadas de brejas e Jhonnys, acompanhados pela cereja do bolo da música popular brasileira. Vizinhos caretas são chatos como seus cachorros cagões e fedidos.
Lembro-me de quando minha vó Rosires ouviu Djavan cantando “Meu bem Querer”. Ela me disse: “Esse Djavan é ótimo, mas alguém me explica as letras dele, por favor?”. E ela acendia um Holywood, ao mesmo tempo em que meu pai acendia um Carlton e pedia: “toca Caetano, vai”.  Assim foi minha infância e a lembrança que tenho de minha vó.
Ela estava na casa de meu pai, ouvindo baixinho um disco esquisito que eu não lembro de quem. Eu cheguei e botei o primeiro CD gravado pelo Jammil pra tocar. Nos primeiros acordes ela mandou: “Aumenta o volume”.  Ela olhava pro aparelho de som com os olhinhos cheios de catarata e remela e quase chorava de orgulho por ouvir o disco gravado pelo neto. Disse-me, cheia de carinho: “Você já é tão lindo, Maninho. Fazendo essa música alegre que você faz, é agora que vai comer todo mundo”.  Acendeu um Hollywood escondida de meu pai, e quando ele chegou na sala, abanou a fumaça com as mãos rapidamente, apagou o cigarro no vaso de planta e piscou os olhos pra mim. Eu imediatamente acendi um Carlton e fiz meu pai acreditar que o cheiro de cigarro na casa havia sido provocado por mim. Faz tanto tempo e parece que foi ontem.
Vai com Deus, vovó. Quase não convivemos. Mas só a lembrança que tenho quando você viu a foto da banda e disse “esse Tuca é bonitão, hein?” já me faz rir, ter saudade de você de um jeito inesperado e saber que você foi feliz, divertida e especial. Meu pai não poderia ter nascido diferente. Sei que naquele dia feliz em que a gente estava na piscina em Jacuípe e que você olhou pro lado e viu vários casais se beijando, você não ligou pro que meu pai ia pensar quando acendeu seu cigarro e me disse: “só sobrou nós dois, Maninho. Vamos fumar”. A gente riu pra se acabar.
Sei que quando você chegou aí no céu, na sala de espera, se é que você precisou mesmo esperar, acendeu um cigarrinho e aguardou, com sua impaciência de sempre, sua audiência com Deus. Quando Ele chegou, tenho certeza de que Ele riu quando você apagou seu cigarro no vaso de planta de São Pedro. E tenho certeza que Ele deve ter pedido pra você: “Toca Caetano, vai…”
A felicidade é pedra preciosa. Uma jóia chegou ao céu pra ornar com encantos o colar de alegria que Deus pendura no pescoço.
 E a nave vai…
 

Manno Góes

postado por: manno