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Criança esperança. Dia dos Pais
O Jammil no Criança Esperança. Domingo, dia dos pais.
Eu, Tuca e Beto. Sorvete de leite da Parmalat no camarim coletivo do Ibirapuera, São Paulo. “Bom pra caralho, hein?”.
Os atletas vitoriosos e talentosos do Pan acompanhavam o festival gelado de calorias com suas medalhas no pescoço. Sem culpa, competições ou pressão. Daniela, judoca, linda, sem poças d’água, encantava a todos com seu sorriso divertido. Thiago, o nadador, tava corcunda de tanta medalha pendurada. O casal vinte do handebol conversava de mãos dadas o tempo todo. Blá blá blá blá blá blá blá blá blá. Tititi tititi tititi.
Rogerinho, do Jota Quest, excitado e feliz com a expectativa de ser pai pela primeira vez, anunciava: “É amanhã, é amanhã, é amanhã. É menina!!!”. Marcinho, tecladista do Jota, com suas princesas no colo, entendia: “Já passei por isso…”. Dinho, do Capital, apresentando suas duas lindezas com orgulho, dava entrevistas sem tirar os olhos delas.
Eu e Beto nos olhávamos e entendíamos tudo o que queríamos dizer um pro outro: “Puta que pariu. Cadê Badi? Cadê Malu?”
Tuca, em pensamento, cantarolava: “Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho”. Ligou pro pai, Seu Augusto, mandou um beijo, desligou o celular e perguntou pra gente: “que cara de bunda é essa de vocês?”.
Quase jogamos o sorvete na cara dele. Mas Beto, como sempre, me deu uma aula de civilidade. Disse apenas: “Saudade…”. Eu, ao contrário, mandei com gosto: “Vai tomar no cu, seu viado, escroto, puto, sacana, xibungo, viado (de novo)…” Ele riu o riso alegre dele de sempre e pediu um copo de suco de laranja. Eu contentei-me em resmungar: Viado (de novo novamente outra vez). Queria uma birita. Não tinha. Queria um cigarro. Mas lembrei que parei de fumar.
Assistimos a apresentação de quase todo mundo. Criança Esperança é o tipo de show que qualquer artista torce pra fazer. Não só pelo fato de estar incluído no seleto grupo escolhido pra fazer parte do acontecimento. Mas pela importância social do evento.
Anunciaram no microfone, tal qual a todo e qualquer artista que se apresenta no programa: “Jammil e Uma Noites”. Opaaaa!! O anúncio quer dizer: “Larguem o sorvete ou qualquer porra que estiverem fazendo e venham pra cá correndo, seus bando de merda”. Foi o que fizemos. Um elevador apertado, com uma ascensorista sorridente nos conduziu até a coxia do palco. No trajeto ela olhou pra Tuca e perguntou: ” Você que é o Jammil?”. Instintivamente, já acostumado com a pergunta, ele respondeu: “Não. Meu nome é Tuca”. Ela deve ter pensado : “porque Jammil não veio?”.
Luciano, irmão de Zezé foi o primeiro a nos encontrar. Ele havia assistido a apresentação de Zezé e Wanessa Camargo da platéia. Quer dizer… Ele tentou assistir. O descobriram na arquibancada do ginásio e ele teve que tirar o time de campo rapidinho antes que o rasgassem todo. Ele, muito simpático, conversou com a gente sobre cinema, música e sobre “Os Dois Filhos de Francisco”. Adorei seu lado bem humorado quando perguntei-lhe, só de sacanagem: “e a continuação, vai ser filmada quando?”. O descobriram de novo e ele teve que ir embora antes de me mandar ir à merda. Wanessa e Zezé saíram do palco. Wanessa cada vez mais linda, com todo respeito, claro!
Legey, diretor do programa, carinhosamente nos cumprimentou e nos desejou boa sorte.
Então Renato Aragão – o Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo – aquele que caminhou sobre os braços do Cristo Redentor – nos anunciou em rede nacional. Eu tava conversando com Beto sobre qualquer coisa – sobre a reprodução das abelhas africanas, talvez. Tuca então berrou : “Bora, porra, bora!”. Putz! Eu tava com uma vontade absurda de mijar. “Você tá de brincadeira, né?”. Tava nada. Entramos apressados no palco, empurrados pela produção: “Arrebentem, arrebentem, arrebentem”. Arrebentem o caralho! Minha bexiga que tava pra arrebentar, porra! Lá estava eu, morto de vontade de fazer xixi, me apresentando ao vivo pra milhões de brasileiros que assistiam ao programa. Beto, que sabia que eu tava doido por um banheiro, riu com seu sorriso escroto a apresentação inteira da minha cara de mijão.
Saímos do palco e a primeira coisa que fiz foi correr pro sanitário.
Minutos mais tarde, minha Malu ligou: “Papai. Foi legal. Você só fazia pular”. E brincou sobre uma comunidade que existe no Orkut chamada “Os pulinhos de Manno Góes”. Quem criou essa coisa Bambi pra mim???
Eu te amo muito, filhinha. Mas meus pulinhos no Criança Esperança eram pura e simplesmente pra disfarçar a minha vontade doida de fazer xixi…
Eu, Beto, André, Nogueira, Guiga, Téo, Tiago, Marcelão, Sarita, Marquinhos, Gustavo e Lyon passamos o dia dos pais longe dos nossos filhos.
Se tem alguma compensação? Sei lá. O que importa é saber que nossos verdadeiros e eternos fãs pequeninos e espertos estarão sempre nos esperando, cheios de orgulho, meleca, encrencas e histórias divertidas pra contar.
O dia dos pais é bem diferente do dia das mães. Mãe é ternura, berço, beijos, rosas, conselhos, almoço. Dia dos pais, sei lá… Posso estar errado. Mas dia dos pais me remete a churrasco, feijoada, futebol, risada, cerveja… NInguém dá meia, cinto ou calcinha pra mamãe no dia das mães. Mas dia dos pais é a cara de meia, cuecão, gravata, cinto, camisa pólo, carteira barata de couro vagabundo, essas merdas assim. E a gente nem liga. A gente quer mesmo é estar perto da prole. E basta.
A mãe padece no paraíso. Já o pai solta um peidinho… E ri pra caralho em segredo. Bem longe. E com o controle remoto na mão, é claro.
Manno Góes
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