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A lei seca, o cão, o pestinha e eu
Na primeira vez em que postei aqui no site escrevi que “acho muito chato esse negócio de artista crer que tem o direito de opinar em blogs sobre tudo, desde eleição até remédio pra dor de barriga”. Ficar dando opinião sobre política, legislações ou coisas parecidas é panfletagem oportunista pra mim. Continuo achando a mesma coisa. Porque artista é tudo igual. Parece jornalista. Opina tudo sobre tudo sem saber porra nenhuma sobre nada. Mas diante de alguns fatos incríveis que estão rolando por aí, vou adorar me contradizer. Como minha mãe reclama que eu não telefono pra ela e nem dou notícias, e já que ela e dona Wanda, a mãe de Tuca, são as únicas leitoras desse blog, aproveito o espaço desse site pra publicar o que temos conversado nas nossas muitas e longas viagens Brasil afora. Assim elas ficam felizes e eu cumpro meu papel camaleão, mudando de opinião como Ivete muda de namorado. Certa ela.
Quando eu jogava Banco Imobiliário adorava tirar aquela cartinha prêmio “SAÍDA LIVRE DA PRISÃO”. Não sei o que pensa a maioria dos brasileiros, mas com certeza o Daniel Dantas adora essa cartinha também. Que lindo o nosso judiciário! Nós, brasileiros comuns, continuamos caindo naquela mesma casinha “SORTE OU AZAR”. E tome-lhe azar nos peitos da gente: “Se fodeu, babaca. Volte oitenta casas”.
Não tomando partido de ninguém, fiquei sabendo da manifestação dos artistas contra o Gilmar Mendes. Rapaz… Quando um bocado de artista se junta pra dar alguma opinião e se manifestar contra ou a favor de algo, tenha medo. Não acompanho novela. A última que assisti foi “Que Rei Sou Eu”. Aquela em que o Pichot morreu, tadinho… Mas não porque não goste. Acho que pelo fato de morar sozinho há muito tempo assisto menos televisão que a maioria das pessoas. O que não me torna menos ou mais especial que ninguém. É um fato somente. Mas sei da importância e da influência da teledramaturgia brasileira no nosso cotidiano tupiniquim. Manoel Carlos, um autor do qual só ouço elogios, reclamou recentemente em uma entrevista das bobagens escritas e ditas por nossos atores e atrizes. Ele foi gentil. Esqueceu dos cantores, cantoras e baixistas de banda axé. Por isso que adoro os filmes mudos do Charles Chaplin.
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A lei mais impressionante dos últimos tempos, a chamada “lei seca”, me atingiu como uma ressaca. Ou como um gole de pinga virado depois de um caldo de feijão. A “tolerância zero” mudou minha rotina com a força e impacto de um coice. Não havia um dia, uma farra, uma noitada, um jantar, um almoço, um acarajé na esquina, um caranguejo no boteco, um encontro na casa dos amigos, uma pelada de futebol com a turma em que eu não tomasse ao menos umas oito doses e voltasse pra casa dirigindo. Havia algo de curioso no meu dirigir depois de beber: sempre dirigia mais devagar e prestando mais atenção no trânsito. Mas eu sou eu, licuri é licuri. E fui abençoado pelos anjos da guarda que me acompanharam durante todo esse tempo que me impediram de me envolver em algum acidente.
Estou feliz pela lei. Os números revelam que os desastres diminuíram. Os óbitos devidos a imprevistos no trânsito causados pela birita também. Ótimo. Tocamos pra jovens que bebem e extravasam o que tem direito nas festas. Por mais que muitos deles estejam reclamando e espumando, garanto: a lei é boa. Se não virar forma de policiais corruptos ganharem um extra por fora e for de fato levada a sério, estamos dando um grande passo em direção à civilidade. Quando nos acostumarmos a voltar pra casa de táxi depois de uma farra ou festa, veremos que até isso vai fazer parte da diversão. Estou feliz pelos taxistas. Uma vez estava num táxi, lendo alguma coisa. O taxista deu uma freada brusca e soltou um “porra” bem alto. Outro táxi havia dado uma fechada imprudente no que eu estava. Eu levantei os olhos assustado e, sem pensar, mandei: “taxista é tudo foda!” Hahahahaha. Ainda bem que ele levou na esportiva e riu junto. Se tivéssemos os metrôs de Paris ou Londres à nossa disposição estaríamos era felizes com essa lei. Economizaríamos gasolina ainda por cima. Mas por enquanto, o táxi já é uma boa.
Antes de qualquer piada que rolou pela internet, Beto foi o primeiro a comentar, logo que a lei foi anunciada: “xiiii… as feias se foderam!”
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Por falar em Beto, ele sempre gostou de bicho. Não sei se pelo fato dele criar uma cobra entre as pernas desde que nasceu. Mas ele sempre criou bicho em casa. É peixe, tartaruga, papagaio, orangotango e cachorro. Aí, eu e Tuca, de tanto ouvirmos Beto falar do amor dele pelo seu cachorro ficamos na fissura de ter um. Tuca comprou um buldogue francês. Eu, um buldogue inglês. Não sei se pelo fato dele ser inglês, mas não é que o sacaninha já aprendeu a cagar e mijar no lugar certo? E sempre no mesmo horário! Um lorde! Tem uma história curiosa sobre Johnnie (o nome do meu cachorro):
Nós vivemos dentro de avião. Fazer parte de uma banda no Brasil que faz bastante shows significa pegar muitos aviões. E os horários de vôos são incrivelmente ingratos pra quem briga contra o tempo o tempo todo. Imagine-se terminar um show três da manhã, ir pro hotel, tomar banho, arrumar a mala e ir pro aeroporto pegar um vôo que sai as seis pra viajar pra puta que pariu fazer show e dar entrevistas horas depois. Tudo que você quer é dormir no vôo. Mas às vezes vem aquele azar filho da puta de você sentar do lado de um casal que está brigando. Ou de um grupo de amigos bêbados. Ou de alguém que insiste em puxar conversa. Ou, o pior dos piores casos, de uma criança que não pára de se mexer ou chorar! Putzzzzzzzzzzzz! Nossa! É o mesmo que assistir jogo do Bahia no segundo tempo. Uma tortura!
Foi o que aconteceu comigo quando fui pegar Johnnie em São Paulo. Com três meses ele já pesa oito quilos. Mas é pequenininho, o sacana. Fiz de tudo pra que ele pudesse ir na cabine com o piloto, o que é possível quando a empresa aérea considera o seu cachorro um filhotinho. Não teve jeito. Johnnie, com aquela cara encarquilhada de buldogue inglês pidão, todo enrugado, teve mesmo que ir na jaulinha, forrada de jornal e cheiro de xixi. Quando o colocaram naquela esteira de bagagem do embarque, onde as malas são atiradas como pás de cimentos em construção, fiquei olhando praquela carinha gorda pensando “se fodeu, Johnnie”. Mas na verdade, quem se fodeu fui eu. Pra começar, havia chegado com duas horas de antecedência do horário do vôo justamente pra tentar sensibilizar o povo lá da TAM e conseguir botar Johnnie na cabine. Conseqüentemente, peguei uma janela e depois de frustradas as tentativas, fui pra sala de embarque doido pra tirar uma soneca no avião. Embarque iniciado, com duas horas de atraso, fiquei pensando no martírio de Johnnie. No mínimo há quatro horas dentro daquela jaula fedida e desconfortável sem entender que porra estava fazendo ali. Aí começou o MEU martírio. Entrei no avião, e, na minha janela, conseguida com horas de antecedência, encontrava-se uma jovem senhora com um guri de uns dois anos no colo. Educadamente dirigi-me a ela: “bom dia. Qual seu assento?”. Ela, também gentil, respondeu que não era aquele, mas que era a primeira viagem do seu filho e ele queria muito ir na janela. “sem problemas”, respondi e sentei-me morto de fome e sono no corredor. Puta que pariu! Ô, arrependimento! Bastou o avião decolar que o guri começou um festival de choro e de grito e de puxão de cabelo na pobre da mãe que me deu pena da pobrezinha. Pior pra quem tava na poltron na frente deles. O guri socava a poltrona, abria e fechava com força aquela bandejinha e, pra piorar, começou a pular e a sacudir-se sem parar. Parecia dançarina do Tchan. Meu sono foi pra casa da porra e a escrota da mãe dele ainda começou a conversar sobre receita de bolo com a velhinha, coitada, que estava entre nós dois. Imagino a velha pensando: “pega essa farinha de trigo e mete no cu, miséria! Faz esse menino dormir, pelo amor de Deus!”. Resignado, comecei a jogar Sudoku. Sou craque nessa porra. Solidão, viagens sem fim e falta do que fazer nos torna especialistas em um bocado de coisa inútil e inventada por japonês. Aí começou a outra parte da minha penitência. A primeira vez em que a mãe do moleque me pediu licença pra se levantar e ir pro banheiro com o guri foi uma espécie de alívio. Os comentários da velhinha ao meu lado revelam a sequência de sentimentos da gente: na primeira ida ao banheiro da dupla ela disse: “ave, Maria, meu filho. Dois minutos de sossego.” Na segunda vez ela já comentou “isso é um absurdo”. Na terceira ela me perguntou: “essa janela não tem como abrir não?”. Acredite: o guri não parou um minuto de gritar, chorar, encher o saco e bater na poltrona em frente. O problema não era ele. Criança é criança. Mesmo sendo mal educada. O problema era a mãe dele não fazer nada! Não reclamar, não impedir, não brincar com o guri, nada. A água, quando ele bebeu, foi a velhinha quem ofereceu. O lanche ele cuspiu no colo da mãe. Ô moleque chato do caralho! Finalmente chegamos em Salvador. Na esteira, lá vem Johnnie com aquela cara de “me ame, por favor, pelo amor de Deus” dentro da jaulinha. A primeira coisa que fiz foi soltá-lo. Ele balançou o cotoquinho de rabo que tem com a alegria de quem acaba de ganhar na loto. E adivinha quem corre todo sorridente em direção a ele gritando “mamãe, au, au, mamãe, au, au?”. Ah, pôrra!!! Carreguei Johnnie no colo e tratei de fechar rapidinho a jaulinha dele, pois me bastava três segundos pra botar o guri ali dentro e embarcá-lo pro Iraque ou pra Neverland, o sítio de Michael Jackson.
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Ia terminar esse post com uma piada. Mumu não deixou.
Censura é uma merda.
Se até Zíbia Gasparetto pode escrever o que quiser, porque eu não posso???
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Nosso DVD chega mês que vem… Tá massa!
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Namastê
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Manno Góes
Julho/2008
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