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Minha turma do Penadinho
Eu escolheria meus amigos antes de nascer.
A gosma branca e aderente - espermatozóides girinos termogênicos anfetaminas cafeínas ecstasys azuis elétricos doidões- se tornaria jato forte chuá através do gozo forte e prazeroso de meu pai, que sairia pela uretra da cabeça do seu pau grande, duro e ereto, encharcando, inundando e grudando-se na parede úmida, receptiva e vermelha do útero fértil e sadio da minha mãe.
Neste exato momento, uma campanhia irritante e aguda berraria no reino dos céus, acordando os anjos. Viria então um funcionário qualquer do segundo escalão do ministério celestial, assustado, com cara e olheiras de sono, tocando sinetas, desfilando apressadamente e nervoso sobre o piso branco de mármore e marfim do luxuoso e enorme salão de visitas da casa de Deus, anunciando: “O próximo, o próximo, o próximo, rápido, rápido, rápido”.
Como assim? Lá estaria eu. Espantado por ser o primeiro da fila. Com um cigarro na mão e um copo de Black Label na outra. Olharia prum lado e pro outro e tremeria: “Sou eu?”. E então me empurrariam, dizendo “É sim, caralho. É sua vez. Vai logo, filho da puta”. E eu pensaria: ”Mas, já, porra?”.
Me despediria com um beijo na boca de todas as virgens do paraíso, puto por não ter conseguido convencê-las a perderem sua virgindade comigo. Arrumaria minhas malas e perguntaria: “Faz frio em Salvador?”. Porque era pra lá que eu gostaria de ir.
Me apresentariam, na sala de embarque, a uma tal de dona Cegonha e diriam: “A próxima viagem é a sua”.
A briga iria começar daí. Primeiro, iria exigir ir na janela. E de primeira classe, é claro. É lá que servem as melhores champagnes.
Depois iria obrigar a me embrulharem quentinho numa fralda azul, vermelha e branca. Pois iria querer nascer, crescer e morrer Baêa, minha pôrra.
São Pedro iria reclamar: “Larga logo esse copo, Manno Góes. Tu tá atrasando tudo aqui, caralho”.
Eu iria rebater de frente com ele: Exigiria sol nos fins de semana e cerveja gelada com caranguejo na praia, bradando: ”Só saio daqui quando eu me despedir de Deus. Cadê Ele? Não saio daqui nem fodendo sem antes falar com Ele”.
São Paulo, então, iria interceder. Me daria um esporro seguro e absurdo. Puxaria minha orelha com força e me diria o que hoje eu já cansei de saber: “Deixa de ser idiota, porra. Você não precisa se despedir de Deus. Não sabe que Ele vai estar com você, do seu lado, o tempo inteiro, durante toda a sua vida, imbecil? Cê é burro, é?”.
Ficaria meio murcho e diria “É mesmo, né, São Paulo Borges?”. Daria um beijo em sua testa, diria “meu ídolo’ e reconheceria toda sua sapiência, pedindo desculpa e me prepararia pra embarcar.
Cartão Fidelidade na mão e com a fralda tricolor cobrindo o pintinho – lembram da nave do super-homem?, apertaria o cinto de segurança.
Me despediria da galera sorrindo e encararia com cara feia a tal da dona Cegonha pernas finas, que tava me levando embora do paraíso. Perderia a moral com São Paulo Borges de novo, mas não perderia a piada: “Tu tirou seu Brvet aonde, libélula?”.
Ela – a cegonha - empinaria sua bunda, faria bico e “humpf” e pensaria: “Se fodeu, sacana. Vou te deixar lá em novembro, tempo de chuva em Salvador. Vou pegar uma turbulência fodida, de pro-pó-si-to! Aperte o cinto, que o piloto vai sumir. Tu vai ser músico, babaca. Pra viajar tanto quanto eu. Pior: Vai nascer escorpião. Antes de te conhecerem já vão te chamar de doidão, estourado, ciumento e possessivo”.
Eu então perguntaria: ” E de doido por sexo, ninguém vai me chamar não?”. Ela responderia: “É um preço que você vai ter que pagar”.
Oxe! Pagar esse preço eu topo pagar. Difícil é cumprir as expectativas!
Então outro santo lá qualquer diria: “Poltrona na vertical, senhor. Prepara pra decolar”. Eu iria então gritar bem alto: “Opa, Opa, Opa!!! Como assim? Cadê a birita? A quem vou chamar de pai e mãe?”.
Intercederiam informando: “Família você não escolhe, rapazinho. O que é isso no seu bolso?”. Tomaria um baculejo, seria obrigado a jogar fora o último bob lelys marley e a última cartelinha de Rivotril e só então saberia que estava partindo mesmo. Percebendo que iria ter que me esquecer de tudo. Das amizades que fiz, das lições, das harpas e das virgens.
“Meu senhor!!! Onde vou arranjar virgens nessa terra festeira cheia de putaria chamada Bahia??????????????????”
Aí o pau ia comer. Pularia da fralda e do bico da cegonha antes da decolagem, espumando: “Me deixa escolher alguma coisa pelo menos, porra!”.
Allan Kardek diria: “Calma, garoto. A vida não é uma só”.
O Marquês de Sade gritaria: ” Manda se foder mesmo, garoto! A vida é uma só”.
Jesus me diria: “Não, Manno Góes. Não vou transformar essa água em vinho”.
Eri Jhonson diria: “Show do Chiclete? Aonde? Que dia?”
E então Deus me apareceria sorrindo.
Caralho!! Ficaria intimidado na hora. Lembraria do sorriso de Eve!
Ficaria tímido, envergonhado, sem jeito. Confundiria respeito com submissão.
Ele – Deus - então me diria: “Tá bom, Manno Góes. Escolhe três coisas. Mas saiba que cada pedido negado é um pedido perdido. Peça com sabedoria. Escolha qualquer coisa. Menos sua família, pois essa quem escolhe sou Eu. E nem venha me dizer um dia que você não pediu pra nascer, pois foi você que ficou aqui um tempão me pentelhando pra assistir Friends”.
Eu então abriria um sorrisão gigante pra Ele, acenderia um carltinho e pediria: “Sabe aquela coisinha fofa que fica de maria chiquinha pulando corda brincando naquela nuvem branquinha branquinha de algodão doce sobre o sol de Parador? Posso tê-la como filha e chamá-la de Malu?”.
Ele riria e responderia: “Já te disse, Manno Góes. Família, sou Eu quem escolho. Pedido um negado. Deixa que isso eu decido”.
Me resignaria e diria “tá bom”. Mas pela cara dele acreditaria que acataria meu pedido…
Pedido dois:
”Posso escolher a mulher de minha vida?”
Deus riria de novo e diria : “Já te disse, Manno Góes. Família sou eu quem escolho. Quem sabe o que é bom pra você sou Eu. Vai que você escolha uma que more longe? Se for pra acontecer, sou Eu quem decido. Pedido dois negado. Eu escolho a mulher de sua vida, tá bom? Vou cuidar com carinho disso, acredite. Só te sobrou um pedido, meu filho. Escolha com sabedoria agora, idiota”.
Aí eu pensaria, pensaria, pensaria…
E perguntaria: “Senhor… Preciso pra decidir isso ler mesmo os livros de Paulo Coelho, que tem todas as respostas e perguntas? Eu li o Alquimista! Tudo bem que Brida e os outros que eu tentei ler dele eu vomitei no meio…”
Ele me daria uma bronca pelo meu preconceito gratuito e perguntaria: “Você leu os livros infantis que eu mandei serem publicados? O Pequeno Príncipe? O Menino do Dedo Verde? O Sítio do Pica-Pau Amarelo?
Responderia com sinceridade: “li, li, li”!
“E os outros? Harry Potter? O Segredo? Qualquer um de Zíbia Gasparetto? Todos os outros de Paulo Coelho?”
“Eu li, eu li, eu li!!!” (Mentiraaaaaaaaaaaa…)
Ele já sabendo da minha mentira responderia, com sua eterna sabedoria: “Nem eu, meu filho. Mas tiraram Jesus para Cristo. E não é que Ele te ajudou? Você já nasceu perdoado”.
E eu então perguntaria “Como assim? Jesus não é o Senhor também?”
Ele riria e cantaria um trecho de ìndios:
“Quem me dera ao menos uma vez entender como um só Deus ao mesmo tempo é três. E esse mesmo Deus foi morto por vocês. Só maldade então então deixar um Deus tão triste”.
“Você tem direito a seu último pedido, garoto”.
Eu tomaria o último gole. Mandaria a cegonha ir à merda se me pedisse pressa.
Desejaria, por fim, e como último e único desejo que me restaria então, alguns bons amigos.
Pediria a amizade de uns caras que me fizessem rir quando eu tivesse todos os motivos do mundo pra chorar. Que me dariam os conselhos que eu precisasse ouvir e que me fariam calar a boca quando eu estivesse falando demais. Que esconderiam o cigarro quando eu estivesse tentando parar de fumar e que jogariam a cocaína na pia se um dia eu achasse que drogas poderiam ser algo legal pra mim. Que dirigiriam meu carro quando eu estivesse muito doidão e que ririam das minhas piores piadas só pra eu não ficar constrangido sozinho numa mesa de bar.
Que ririam da minha cara e diriam “muda de roupa, porra” quando eu estivesse com uma camisa ridícula qualquer. Que me mandariam acabar um namoro se eles soubessem que este namoro não valeria a pena pra mim. Que me diriam “aposte nessa garota, pois é dessa que você gosta de verdade”. Mesmo que essa pessoa morasse longe, tão longe, tão longe, num reino tão distante.
Pediria uns amigos que virassem a noite comigo me falando das suas dores, mesmo sabendo dos meus sentimentos e segredos mais íntimos e do meu desejo maior de falar do que de ouvir.
Pediria uns amigos que me mandassem tomar no cu quando eu estivesse errado. Que me mandassem cuidar de mim quando eu exagerasse na dose. Que me permitissem empurrá-los debaixo de um chuveiro frio quando eu estivesse sóbrio e eles passassem do limite.
Pediria uns amigos que me permitissem puxá-los pela gola da camisa e levá-los embora de onde quer que estivéssemos, quando, por birita em excesso, se interessassem ou fingissem se interessar por garotas que não fossem suas esposas ou namoradas. Mesmo que eles me xingassem de careta e de velho até a hora em que eu conseguisse botá-los pra dormir. O “muito obrigado, Manno Góes” do dia seguinte compensaria qualquer tapa na cara que eu tomasse deles na noite anterior.
Pediria uns amigos que me mandassem perserverar em um sentimento, me mandando ficar tranquilo e em paz. Me achando melhor por eu estar gostando de alguém e ficar só do que ficar apresentando a eles toda noite uma namorada diferente.
Pediria uns amigos que ouvissem minhas piores músicas e que diriam: “porra, Manno Góes, que merda.” Mas que elogiariam quando gostassem das outras mais legais. Ao contrário dos tantos que costumam dizer “que lindo”, pra qualquer coisa, só pra me agradarem.
Que dormiriam em minha casa quando eu estivesse muito bêbado e tivesse que viajar no dia seguinte de manhã cedo. Só pra me acordarem e dizerem: “Acorda, filho da puta. Tu tem um vôo pra pegar”.
Uns amigos que quando acordassem perguntassem, antes mesmo de encontrarem a pasta de dente: “Tu dormiu bem?”.
Então Deus me olharia sorrindo com aquela cara linda de Jesus Cristo que nos ensinaram a crer que Ele tem na igreja: Todo gatão. Lindo , lindo , lindo. Cabelão, altão, malhado, ohos puxados…Um gato.
Pediria amigos que me aceitassem como eu sou.
Ele- Deus – então me diria: “Meu filho… Aí já não é mais comigo. Eu conheço da cabeça aos pés esses amigos aí que você quer ter por perto. Deixa eu fazer uma ligação lá pra baixo e conversar com aquele feioso se esses seus amigos aí já podem ser liberados, tá? Vou pedir pra ele abreviar a pena deles, ok? Se eles têm mesmo que pagar um preço alto pra se reencontrarem comigo e com o paraíso um dia, você é o carnê do baú”.
E assim eu nasci, já fazendo minhas boas ações. Permitindo que Deus, com toda sua benevolência me fizesse baiano, filho dos pais que amo e tenho, chamando a menininha de maria chiquinha que brincava de corda nas nuvens de filha e fazendo com que os amigos que eu adoro e que me aturam paguem à vista o karma que teriam que pagar. Amigos que escolhi e que escolheria mil vezes, em mil reencarnoções. E me agradeçam , vizinhos. Ou vocês acham que só meus amigos estão pagando seus karmas?
Quando a dona Morte bater na minha porta com seu sorriso amarelo e escroto, já vai chegar cheia de reconmendações da dona cegonha: “Ele me deu uma dedada quando eu o deixei na porta da casa dos pais dele, dona Morte”.
Eu vou estar de pijama, assistindo Dexter, com um cigarro na mão (ou não) e um black label na outra. Ela vai me olhar com aquela cara feia de carranca dela e dizer: “bora nessa. Chegou tua hora”.
Vou encará-la com meus olhos vermelhos e sorriso enrugado e perguntar: “Mas já, porra???”
Vou dizer: “Me espere então acender um cigarro. Pois parei de fumar. E outra coisa: Eu vou é de primeira classe, onde servem as melhores champagnes. E na janela”.
Vou perguntar se posso me despedir dos meus amigos, pelo menos.
Ela vai rir e dizer “Nem se preocupe. Você vai se encontrar com todos eles no céu um dia”.
Namastê
Pra Malu, família inteira, Domingos Coutinho, Dedé, Coelho, PB, Rose, Veca, Mumu, Cabelinho, Calumby, Rebeca, Paulita, Hagá, Metade, Lolô, João Davi ( que está por vir)….





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