jan
Booo
Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
Hoje não é o papai que tá escrevendo aqui no blog da banda dele, de tio Tuca, de tio Beto e de mais um tantão de tio que eu não sei porque não saem na capa do disco também. Acho que é porque só papai, tio Tuca e tio Beto tiram foto, não sei, eu acho. É que meu papai viaja muito, sabe? E vai pra um tantão de lugar muuuito longe. Acho que hoje mesmo ele tinha vindo de um lugar muito longe, mais longe que a casa do dindo, que é muito longe, porque quando mamãe perguntou pra ele de que cidade ele tinha vindo quando ele foi me buscar lá na minha casa que não é muito longe, é pertinho da casa dele, ele disse pra mamãe “lá da casa do baralho” e fez “ops!” e pôs a mão na boca e me olhou com cara de susto e mamãe fez cara feia pra ele e disse “não fala nome feio na frente dela, pô” e eu não entendi porque mamãe achou que “casa do baralho” é nome feio, porque eu mesmo sempre falo baralho quando vou brincar de burro com minhas coleguinhas e nunca mamãe brigou comigo porque eu falo baralho. Eu dei risada disso tudo e depois contei isso tudo pra papai no carro dele. Não entendi também porque ele riu e riu e riu e disse “é porque você ainda é pequeninha, filhinha. Um dia a última pessoa a quem você vai perguntar onde está o seu baralho é a sua mamãe”. E ele riu de novo e riu e riu e riu e ligou pra mamãe dando gargalhada disso tudo contando isso tudo dando muita risada disso tudo. Eu, hein? Acho que papai fica viajando tanto que fica meio doidinho, tadinho. Essa tal casa do baralho deve ser muito longe mesmo e deixa papai meio besta, sei lá. Aliás, adulto é um negócio meio difícil de entender mesmo. Outro dia mesmo lá na casa de vovó papai chegou e era tarde, já tinha acabado o Jornal Nacional, e a gente tava assistindo um DVD muito legal do Monstros S.A.
E foi justo na hora quando Booo que é a menininha do Monstros S.A que papai sempre disse que parecia comigo quando eu era pequenininha se fantasiou de monstro e ficava fazendo Booo que papai chegou falando alto e beijou vovó e me beijou e disse que estava saindo, que só tinha passado lá pra dar um beijo na gente e tomar um Johnnie. Não entendi o que Jhonnie, meu cachorro, ou de papai, nem sei se é meu ou dele, mas papai sempre me diz que o que é dele é meu, então Johnnie deve ser meu, tem haver com papai passar na casa de vovó pra tomar ele. E entendi menos ainda quando vovó brigou com ele e disse “vai tomar nada que você está dirigindo”. Eu, hein? O que Johnnie tem haver com papai estar dirigindo? Mas adulto é muito esquisito. Vovó, que é adulta e deve ter mais de trinta anos, eu acho – minha vovó é bem velhinha, sabe? – vive me dizendo que queria que eu nunca deixasse de ser criança, mas virou pra papai e perguntou: “quando você vai deixar de ser criança, hein?”. Meu papai que é velho também – deve ter mais de dezoito anos, eu acho – fez que fez e acabou que saiu sem levar Johnnie e deixou vovó muito chateada, porque ela disse pra papai que ele tinha que tomar juízo. Adulto parece que sempre quer tomar alguma coisa de alguém. Papai queria tomar Jhonnie, vovó falou que ele não ia tomar Jhonnie, ia tomar juízo. Eu, hein? Parece criança. Aliás, todo mundo vive dizendo que meu papai parece criança e que não é pra ele me ensinar a pôr meleca embaixo da mesa. Mamãe me diz que eu sou uma mocinha e que mocinha não tira meleca, mas papai é sempre o primeiro a me dizer que tirar meleca é muito legal! Eca!!! Esse meu papai é meio porquinho, eu acho. Eu não tiro meleca. Mas se um dia eu tirar meleca meu papai já me ensinou a fazer bolinha e grudar embaixo da mesa, que é o lugar onde as melecas têm que dormir, como ele me ensinou. Papai sempre me ensina umas coisas muito legais. Outro dia ele me ensinou a soltar pum e colocar a culpa nos outros. Ele só disse que a ténica, tética, tecnisca, não entendi muito bem o que ele falou, era não deixar o pum fazer barulho e levantar a sobrancelha olhando desconfiado pra pessoa que estiver do lado. Eu dei muita risada quando um dia ele soltou um pum na sala da casa de vovó e piscou o olho pra mim e olhou pra vovó com a sobrancelha levantada dizendo: “peidona”. Acho que só eu e papai rimos, porque vovó nem achou engraçado e mandou ele de novo deixar de ser criança e ter juízo. Vovó vive pedindo pra papai tomar juízo. Eu aprendi e também falo pra ele tomar juízo. Não sei bem o que é tomar juízo, mas imagino que deva ser algo muito legal porque vovó e mamãe vivem pedindo pra papai tomar. Acho que no aniversário dele vou na Saraiva que é a loja preferida de papai e perguntar se vende juízo pra dar pra ele de presente. A primeira vez que eu ouvi mamãe pedindo pra papai tomar juízo eu era bem pequenininha, porque agora eu sou uma mocinha. Até pedi pra papai Noel no Natal este ano um presente de mocinha porque já não sou mais nenhuma criancinha.
Mas lembro que foi num dia que ele tava limpando o aquário do meu quartinho na época em que papai ainda morava com a gente. Ele tava limpando as pedrinhas do aquário sentado do meu lado no chão da cozinha e eu resolvi imitar ele e peguei o meu peixinho dourado, que não sei porque papai e mamãe diziam que era um peixinho dourado se ele era vermelho e comecei a limpar ele também, do mesmo jeito que papai limpava as pedrinhas, esfregando bastante. Papai riu e riu e riu e chamou mamãe que chegou rapidinho e riu também, mas colocou meu peixinho dourado que era vermelho de volta na bacia de água, onde meu peixinho dourado que era vermelho estava enquanto papai limpava as pedrinhas do aquário do meu quartinho na época em que papai ainda morava com a gente. Papai não parava de rir e mamãe pediu pra ele tomar juízo. Acho que se mamãe não tivesse aparecido eu ia estar limpando o peixinho até hoje, o que seria muito legal, porque meu peixinho ia ser limpinho e não ia ser porquinho como papai, que tira meleca e solta pum. E ainda bota a culpa do pum em vovó, tadinha, que acho que nunca soltou um pum na vida. Eu pelo menos nunca vi vovó soltar pum. Outra vez que ouvi mamãe pedindo pra papai tomar juízo foi quando eu perguntei porque Tales, meu coleguinha lá do prédio da época em que papai morava com a gente tinha pintinho e eu não tinha. É que eu vi ele fazendo xixi e ele tinha uma torneirinha que eu não tinha e perguntei pra papai o que era aquela torneirinha e ele me disse que era um pintinho. Aí mamãe riu e tudo. Mas quando eu perguntei pra papai porque Tales tinha pintinho e eu não tinha papai me falou e eu não entendi nada que não era pra eu me preocupar, porque um dia eu ia ter um monte de pintinho só pra mim. Aí mamãe não riu e falou que papai tinha que tomar juízo. Ela me carregou e papai ficava dizendo : “Ei!! Essa piada já existe! Só fiz repetir”. Acho que essa piada deve ser muito sem graça, porque mamãe nem eu rimos e mamãe ainda subiu pra casa comigo no colo dizendo que o pintinho de papai ia ficar de molho uma semana. Não entendi nada, mas quando teve galinha ao molho pardo lá em casa outro dia eu acho que foi o pintinho de papai que cresceu e virou galinha e fizeram molho pardo dela, tadinha. Quem parece que não têm juízo também são os amigos de papai. Porque outro dia eu tava brincando com meus bonecos do High School Music na sala lá de minha casa e ouvi mamãe conversando com tia Rosinha, que deve ser bem velha também – acho que ela tem mais de vinte anos, eu acho – e ouvi elas dizendo que tio Cabelinho e tio Mumu não tinham o menor juízo. Que era tudo caso perdido. Não entendi bem o que era caso perdido, mas lembro que mamãe falou que só tio Paulo Borges e tio Coelho tinham juízo. Então, quem não tem juízo é caso perdido. Aí eu fiquei pensando se papai era caso perdido, mas um dia eu vou dar juízo pra papai e ele nem tio Mumu nem tio Cabelinho vão ser casos perdidos mais. E hoje eu estou aqui, na casa de papai. Ele me disse que tinha que escrever no blog porque já tinha um tempão que ele não escrevia. Mas eu pedi pra ele não escrever, porque toda vez que papai escreve no blog ele fica olhando pra tela do computador e rindo e rindo e rindo sozinho igual a um doidinho. E nem me deixa ler depois o que ele escreve, porque ele me disse que qualquer pai que tenha juízo não deixa filha pequena ler o que ele escreve no blog. Aí eu não entendo nada. Se ele não tem juízo ele deveria deixar eu ler o blog dele, né? Mas esse meu papai é meio doidinho, eu acho.
Uáaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Tô com soninho. Acho que vou dormir ali do lado de papai, que tá roncando na caminha dele. Vou aproveitar cada minutinho do lado dele, antes que ele tenha que viajar de novo pra casa do baralho e deixe de ser criança e vire adulto e pare de soltar pum botando culpa em vovó. Amanhã quando ele acordar até já sei que ele vai pular da cama com os cabelos dessarumadinhos e dizer “bora tomar café, filhinha?”. Vai abrir a geladeira e o armário e dizer, de novo, pela milésima vez “xiii, Lu… só tem cerveja e amendoim…”
Esse meu papai, não sei não… vou mandar Johnnie passar uns dias na casa dele pra ver se ele melhora.
Boooooooooooooooo


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