27
mar

Paleolítico


Ahhhhhhhhhhh! Eu queria ter assistido o Radiohead no Rio de Janeiro! Não conhece o Radiohead? Você está ouvindo axé demais, garota.

Eu adoro axé.  Encontro milhões de coisas divertidas nesse universo competitivo e criativo da nossa fábrica de fazer alegria. Depois que Caras, Quem, Contigo e outros veículos de comunicação similares entraram pesado na orla da Barra durante o carnaval, com seus camarotes confortáveis, glamorosos e repletos de estrelas de segunda grandeza, o carnaval da Bahia ficou mais sensacional ainda. Adoro!

Me sinto muito mais inteligente quando acaba o carnaval. Afinal, fico sabendo qual foi a melhor e a pior roupa, o melhor e o mais desgrenhado cabelo, o melhor e o pior croquete de camarão. Fico sabendo também quem comeu quem e quem não comeu ninguém.

Sabe aquela história de antigamente, bem antigamente, do tempo das cavernas, quando a gente cantava coisas como “Jogou sua rede, ó, pescador”, e o Olodum, com suas cores lindas e batuque poderoso ganhava os destaques das ruas e rádios de Salvador? Esqueça.

Sabe aquele tempo, bem lá de antigamente, muito antigamente, quando tudo que a gente queria era botar o bloco na rua, gritar e botar pra ferver? Lembra de quando as músicas que competiam pra ganhar o carnaval causavam divisões de opiniões entre as pessoas pra decidir qual era a melhor e não a menos pior? Esqueça.

Lembra daqueles tempos em que a gente via os blocos lotados, com mamães sacodes agitados pra cima, numa confraria divertidíssima de excessos, porra-louquices e pipoqueiros curtindo do lado da corda dos blocos? Esqueça. “Mamãe sacode” hoje é coisa brega. Legal agora é ficar com aquele treco esquisito que parece um pinto gigante levantado durante o desfile. Que diabo é aquilo, hein? Umas bisnagas de plástico devidamente assinadas por algum  patrocinador. Um tal de “bate bate”. Eu, hein?

Sou do tempo em que axé se confundia com o cheiro de mijo das ruas durante o carnaval na Praça Castro Alves. Na pipoca do Cheiro, Interasa, Eva e Camaleão.  Em que os solos de Armandinho ecoavam no Jornal Nacional. Em que pseudo-celebridades não eram necessárias pra tornar a festa especial. Mas sou velho. Sou do tempo das cavernas.

O casamento camarote-barra trouxe pro nosso carnaval um destaque que não tínhamos tempos atrás. A mídia abriu os olhos pro nosso carnaval quando as mesmas celebridades que freqüentavam os camarotes dos desfiles de escola de samba no Rio passaram a vir pra Bahia, pros nossos camarotes repletos de birita, guloseimas e mulheres gostosas. Fortalecendo assim o circuito Barra-Ondina, que fez dos camarotes uma atração à parte. Enfraquecendo ano após ano o circuito tradicional, o do Campo Grande.

Por mais que se discutam formas de fortalecerem novamente o circuito do Campo Grande, pra mim, mesmo que se solucionem problemas de horários, segurança e estruturas, o circuito Osmar (como é chamado o circuito tradicional, o do Campo Grande) só volta a atrair de fato o público alvo quando a mídia se sentir atraída pra se fixar por lá também. Aquele camarote do Campo Grande, com as redes de TV e seus palanques com caixas de som é o único ponto realmente forte daquele circuito. Não pode, porra. Afinal, é lá que está a Praça Castro Alves, que é do povo, assim como o céu é do avião. Mas não é a indústria do carnaval somente que tem que resolver o problema do circuito tradicional. É o governo que tem que fazer sua parte também. Investir em um projeto de reurbanização da cidade velha. Atrair hotéis, restaurantes, cinemas praqueles lados de lá. Aí sim. Se isso acontecer e alguns camarotes importantes começarem a fazer parte do cenário do circuito do Campo Grande os artistas, e não só o público, redescobrirão o interesse por este circuito. Ia ser interessante se todos os blocos tivessem esse comportamento de alternar seus dias de desfile entre os circuitos. Adoraria sair com o Balada do Corredor da Vitória, pelo menos um dia, adentrando o camarote do Campo Grande ao som de Praieiro, passando pelos casarões antigos da Avenida Sete. Cruzando o relógio de São Pedro e me preparando pra descer a Praça Castro Alves, vendo a vista mais bonita de Salvador.

 Mas eu sou velho. Sou lá de antigamente. Do tempo das cavernas. Do tempo em que eu saia em bloco e sabia qual banda que tava tocando. Sou do tempo em que a gente beijava na boca um bocado também. Mas que sabia, pelo menos, fazer uma gentileza com a paquera do momento. Não era essa coisa de agarrar somente e contabilizar o número de bocas que chupou. A gente beijava, conversava um pouquinho, dava uns pegas atrás do carro de apoio, tomava uma cervejinha juntos, andava de mãos dadas no bloco, dançava agarrado. Essas coisas de velho. Sabia até o nome da pessoa que a gente tava beijando, olha só!

Sou do tempo em que era maneiro ver um bloco inteiro de mamãe sacode pra cima. E não esse pinto de elefante que arranjaram de pôr em seu lugar. Bate bate. Prfff. Parece coisa de punheteiro.

Não sabe o que é mamãe sacode? Tá ouvindo Radiohead demais, garota.

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Sinto falta das músicas de preto, de negão. Não do pagode, que está muitíssimo bem representado pelo Psirico, Fantasmão, PretuBom, Parangolé, Pagodart. Falo de músicas de axé, que se caracterizam pela influência do samba reggae original. Pagode é pagode, axé é axé. Caminham juntos de mãos dadas, mas são diferentes em elementos rítmicos.

Entendo que bandas como Jammil, Asa e Eva são importantes pro axé. Mas sei que não temos competência nem história de vida pra falar com originalidade de características próprias do universo negro da Bahia. Somos da safra axé-universitários, movimento criado por Durval lá pelos tempos das cavernas. Movimento que ele nem sabe que fundou. Tá bom. Que eu tenho a ousadia de dizer que foi ele quem criou.

Sinto falta do Olodum. Cadê o sucesso do Olodum neste carnaval? Quem viu o desfile do Ilê? Quero Margareth Menezes endeusada, reverenciada como o talento que é. Quero ver o Araketu brilhando no próximo carnaval. E quero ver Tatau com sua voz linda arrebentando também. Quero ver o Cortejo Afro no Jornal da Globo. Quero ver Bronw ter na Bahia o destaque que teve, lindo, no Rio de Janeiro. Quero ver novos Tonhos Matérias surgindo, com vozes roucas e poderosas de negão. Quero ver Denny da Timbalada sendo reconhecido como o grande talento desta nova safra de música axé. A influência negra na nossa música é fundamental pra que o carnaval continue atraindo os brancos, negros, pardos e amarelos que compram abadás, passagens aéreas, churrasquinho de gato e CD pirata na sinaleira da esquina. Esse carnaval de hoje tá muito branquelo.

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Sou do time do bloco de corda. Do time de artistas que atrái turistas pra Bahia com toda a estrutura mercadológica que envolve nosso trabalho. Mas o carnaval não pode depender somente dos blocos de corda e dos artistas que aparecem na mídia. O que tornou forte nosso carnaval foi a nossa música. E um conjunto de ações que envolve parceria com empresários de outros estados, inteligência empresarial e competência administrativa,  somado a um bom trabalho de mídia e divulgação. Mas nada disso adianta se pararmos de dar espaço pra voz da rua, do povão. Que, em se tratando de Bahia, é representada por mais de 70% de negros. Cheios de criatividade, talento e idéias na cabeça.

Mas sou do tempo das cavernas. De antigamente. Do tempo em que o carnaval era  simplesmente celebração. E não celebridades.

Namastê

“E a galera ta delicia
Curtindo na moral
Funk, curte samba
Vai o carnaval
Hei! Você que está parado aí
Jogue a mão pra cima
Sai do chão
Sacode aíE é mamãe sacode
Mamãe sacode
Mamãe sacode
Mamãe sacode “
 

 

 

 

Pagodart (Mamãe Sacode)

postado por: manno