09
jul

Janina


morfeuDurma, meu amor, durma. Não espere por mim. Durma o sono dos anjos, dos quadros, das ruas. Sonhe sonhos, sonhe.

Sonhe seus sonhos amarelos, secretos, de cor. Sonhe com abajures que se prendem em janelas de escafandros. Deixe as cortinas escavadas e permita ao comedimento partir sem pressa.

 Desculpe-me por não acompanhar seu sono hoje. Não vamos dormir abraçados como sempre fazemos e gostamos de fazer. Dormiremos sem pés aquecedores. Quando nos tornamos um só e viramos lagostas, que se grudam até morrerem.

Simplesmente durma, meu amor. Estou aqui com a minha bruxa insônia, respirando alfinetes e espirrando sapatos. Velando seu sono como velho sem dentes.

Sonhe com liquidificadores gigantes fazendo suco de genitálias mascadas. Sonhe com carros que voam e submarinos que dançam. Tropece como oxigênio nas escadas e prenda um piercing de pistache na orelha.

 É lindo te ver sonhar. Ouvir sua respiração bússola oscilar, mudando cenários no teatro quimera dos seus devaneios, como lápis que cultiva videiras.

Sonhe com sinos que caem e que rolam no chão, transformando-se em línguas-abelhas, lambendo pessoas para transformá-las em badalos.

Fotografe esquilos avelãs que compram ingressos de gesso para shows de postes e se perdem na entrada do útero.

Reanime um satélite num poço e use o refrigerador como toalha.

Sonhe com castiçais de ossos, em palácios de vidro, você nua, perdida e só. Sem claras de ovos pra te algemar.  

Sonhe com sapos miando e com olhos cegos armados.

 Sonhe com portas que não se abrem ou que se escancaram com o sopro de um lobo.

Dê a mão a um gnomo e o crucifique numa montanha russa de marchimelo. O faça vomitar moedas de ouro e as doem pras cores que não aparecem no fim do arco íris.

Arrisque jogar críquete na lama e permaneça passeando descalça na neve.

 Sonhe com uma casa nova, de portas lâminas e fechaduras afiadas. Onde os remédios voam e os esparadrapos falam. Um albergue grego, onde faremos estudos sobre o tempo e a teoria quântica das tangerinas não nos dirá mais nada.

Atraque os passatempos sem sementes e ancore o pudor dos imorais. Cuspa vidros e abodegue tapetes. Faça pontas de cigarros de enfeite. Pendure vacas na parede.

Sonhe com macacos que falam e ensinam xadrez  dirigindo gramática, em fuscas verdes de óleos e extintores de incêndio bêbados.

Seu sono é lindo. Meu nariz sente falta de estar grudado no seu pescoço morfina marfim Bram Stoker de giz e porcelana.

Queria seus braços perfeitos, traçados, me trançando fita crepe.

 Durma com Deus, meu amor.   

Puxo a coberta pra proteger sua orelha maçã. Cobertas grossas de cascas de uva contra o frio sem graça da máquina de xérox.

 Corpo em decomposição de feto pedindo calor. O meu calor. O calor do homem que você ama. Avião em turbulência.

Mas eu estou sem sono. Minha imaculada e delicada vigília me convida a um alfarrábio, a um filme, a um instrumento. O computador da nossa alcova me agasalha dos aspiradores de pó sem bexigas e me oferece um jazigo. 

 Ao seu lado, em silêncio, digito o fluxo do sol que nasce. Sua respiração me conforta. Você está viva.

Esteja onde estiver sua mente, daqui a pouco, quando você acordar, vai me dar um beijo e dizer :“te amo”.

 Vou mastigar a pulseira das horas e responder sem torneiras  “eu também”.

Vou te ouvir avalanche catar bitucas no teto e jogar gongos sujos na pia da varanda.

 E quando a porta se abrir estalactite eu irei perguntar “quer ser feliz pra sempre?”

Você vai rir e indagar “O que foi que você tomou?”

Mas nessa hora eu já não vou mais te responder. Estantes, cristais e vidros esculpirão meu letargo e em vôo cego eu seguirei a pé pelo saguão de mármore de Morfeu.

Quando acordar eu vou sentir saudades. E me lembrar muito pouco do safári desta noite.

Te amo.

 E enquanto isso, na enfermaria, todos os doentes cantam “Lucy in the Sky with Diamonds”, desafinados e contentes.

Bom dia, flor do dia.

Já te disse hoje que eu te amo?

Namastê

postado por: manno